terça-feira, 30 de outubro de 2007

SIMPÓSIO DE FILOSOFIA - UNESP - MARÍLIA/SP

ALCA E EDUCAÇÃO: direitos intelectuais?


Profª Drª Irizelda Martins de Souza e Silva
R.Campos Sales, 225/902
Cep 87020-080 Maringá/PR
Profª Kiyomi Hirose
Rua Floriano Peixoto, 1549/301
Zona Sete, 87030-030 Maringá/PR
khirose@uol.com.br
Profª Drª Maria Aparecida Cecílio
Parque Residencial Tuiuti; Rua Rio Ligeiro, 849
Cep 87043-200 Maringá/PR
mcecilio@teracom.com.br



Nos movimentos do governo norte-americano nos anos de 2002 e 2003, observamos que as estratégias para anexação ao projeto da Área de Livre Comércio (ALCA), uma proposta de integração comercial de todos os países das América, com exceção de Cuba, amenizam as políticas agressivas ao Chile e ao México. Será em função da aproximação desses países com o Mercosul1?

Até dezembro de 2003, a presidência do projeto da ALCA agenciou com todos os setores de produção: primário, secundário e terciário. Entendemos que a educação abarca todos esses setores. A cartada evidente, agora, é investir na pauta da agricultura e os direitos intelectuais.

A agricultura por representar a manutenção alimentar como referencial mundial e por alavancar o controle de subsídios desenvolvidos pela Comunidade Européia (CE) a seus produtores, no ano de 2002. O enfrentamento europeu ao poderio econômico norte-americano desequilibrou o comando desse governo junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). Os europeus que sempre resistiram à derrubada do protecionismo agrícola contaram com a parceria do Japão, que vem adotando posições cada vez mais duras em relação aos cortes de tarifas propostas, para exportação de produtos, bem como a redução do suporte financeiro doméstico aos produtores agrícolas, sempre que distorçam o comércio. Essas posições forçaram a cúpula do projeto da ALCA a reordenar a posição política deliberadora que imperou até então, acentuando a antecipação dos encontros para acordos de anexação, de modo a acalentar os Tigres Asiáticos2 diante do confronto com Comunidade Européia.
No âmbito do controle da propriedade intelectual, a posição dos Estados Unidos da América (USA) demonstra seu potencial monopolizador até mesmo no setor da saúde pública. As regras de patentes da OMC são reforçadas pelas estratégias dos USA frente à Organização das Nações Unidas (ONU) nas alianças protecionistas e na ação de monopólio, como na aliança USA e Índia para não liberação de medicamentos genéricos, tendo como conseqüência um genocídio, que os meios de comunicação parecem banalizar, naturalizando-se os fatos.

O Brasil, através do Ministério da Saúde, desafiou a quebra da patente pelo direito à produção de genéricos para o tratamento de portadores do vírus do HIV, conquistando o direito de defesa à vida dos portadores dessa síndrome. Relembrando que, no final de 2001, em Doha, Qatar, Continente Africano, o nosso país conseguiu emplacar sua tese de que o respeito às patentes não pode servir de empecilho para produção de remédios desrespeitando as patentes, mas em defesa à qualidade e respeito do direito à vida.

A acirrada posição exponencial assumida pela cúpula dos USA frente à ONU e OMC teve, no ataque ao Iraque (2003), a máscara de articulador transformada com a face de ditadura, conquistando desafetos por todo o mundo, para além da OMC, da CE, também, manifesta-se na crise com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN.

Hobsbawm, historiador britânico, em entrevista concedida ao jornalista Cassiano Elek Machado, na cidade do Rio Janeiro para o jornal Folha de São Paulo, 31.07.2003, não olha com otimismo os próximos anos, afirmando que os Estados modernos estão definitivamente perdendo nas últimas três décadas, o controle da violência em seus territórios e que é um processo que está apenas começando. Que a crise que hoje presenciamos está diretamente ligada à Guerra do Iraque, muito impopular também na Inglaterra, ultrapassando os limites do Partido dos Trabalhadores, quando se tentou reformar o sistema britânico em direção ao livre mercado norte-americano, “algo pouco coerente com os princípios tradicionais do partido”.

A constante necessidade de controle das bases de organização social do mundo, pelos doutrinadores norte-americanos, traz nas suas ações a medida das reações que estão eclodindo no cenário mundial com a aceleração da agenda para as negociações da ALCA.

No campo da educação, a calmaria brasileira diante do compasso das discussões científicas envolvendo os direitos intelectuais é, no mínimo, inquietante. Os gritos políticos dos movimentos sociais parecem não soar para os que se encontram embrenhados no sistema educacional brasileiro no tocante às determinações científicas que essa questão implica. Enquanto jornadas internacionais de protestos são profundamente discutidas e organizadas pelas redes dos movimentos sociais, há aparente inércia da população de educadores e de pesquisadores das instituições de ensino superior, frente às preocupações que trazem as negociações da ALCA, sobre a produção do conhecimento científico. Já em 1997, reunidos em Itaici/SP, cerca de trezentos delegados ligados às mais significativas expressões de lutas atuais do povo brasileiro, do campo ou da cidade, filiados ou não a partidos políticos e movimentos sociais, debateram a situação nacional, trazendo para o centro da discussão a América Latina e a criação da Alca. A preocupação recai sobre a inclusão, “[...] não só do comércio de bens e os fluxos de capital, mas também os serviços financeiros e a propriedade intelectual” (BENJAMIN, 1998, p.136).

A abrangência da discussão e das decisões sobre direitos intelectuais deve, na nossa compreensão de pesquisadoras, incomodar os agentes sociais responsáveis por produção de conhecimento e para o uso que, far-se-á do direito ao conhecimento pelos governantes.

Não participar desse debate não produz o efeito de isenção de responsabilidade sobre a utilização dos direitos intelectuais, mas pode significar imprudência política da nação que terá em seus governantes o único canal de manifestação de opiniões e portanto de poder de deliberação. Acreditar e fiar-se nessa democracia representativa parece-nos um ato deseducador para a população brasileira no momento histórico que vive, quando a participação popular é evocada como “prática social de responsabilidade para a conquista da cidadania”.

Ao acompanhar pelos meios de comunicação e por documentos divulgados por ministérios públicos no Brasil e pelo governo norte-americano, as negociações realizadas por nossos representantes nos encontros multilaterais, observamos que há mobilização e iniciativas que concretizam a importância do desenvolvimento de debates sociais que orientam as decisões de nossos negociadores nos diferentes setores de produção.

O setor industrial e agrícola, os segmentos da cultura em alguns Estados da federação brasileira e os movimentos sociais, interferem nas grandes decisões à medida que seus debates setoriais orientam as políticas de ação do Estado Maior pelos questionamentos realizados. No setor da educação se há alguma expressão que manifeste o interesse para com a importância do debate político sistêmico e científico no tocante às propostas de mundialização da economia, não tem encontrado ressonância nacional e, conseqüentemente, não orienta sobre o que há de específico na garantia de controle nacional sobre os direitos intelectuais.

Lembramos que Chauí (1999), ao falar sobre a função social das universidades, alertava para as consequências dos caminhos que as instituições vinham sendo trilhadas
[...] se por pesquisa entendemos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação. Se por pesquisa entendemos o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que não foi ainda pensado nem dito. Se por pesquisa entendemos uma visão compreensiva de totalidades e sínteses abertas que suscitam a interrogação e busca. Se por pesquisa entendemos uma ação civilizatória contra a barbárie social e política, então é evidente que não há pesquisa na Universidade Operacional.

O pensamento de Chauí vem ao encontro com a abordagem reflexiva que procuramos dar a este texto, traduzindo a função que as universidades assumem diante das agendas propostas pela mundialilização da economia.

Constatamos que no campo jurídico existem iniciativas de debate para a orientação das políticas nacionais de ação legal perante o direito internacional. São iniciativas que se refletem no aumento de interessados na formação de grupos de estudos de pós-graduação para a realização de pesquisas sobre direito ambiental internacional. Merece nossa atenção essa prática, no sentido de realização institucional de debates afins que mantém as organizações governamentais aptas a defenderem um posicionamento coerente com o princípio de soberania nacional no referente à propriedade intelectual.

PALAVRAS-CHAVE: Alca, Educação, Direitos


REFERÊNCIAS

BENJAMIN, César et ali. A opção brasileira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998.

CHAUÍ, Marilena. A Universidade operacional. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais, 1999.
http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/geografia/geo5a8/nafta/8a/apec/apec.ppt (acesso em 04/09/2003)


1 MERCOSUL: MERCADO COMUM DO SUL

2 Índia – África do Sul e China (1989); Malásia, Tailândia e Indonésia (1999)
Obs.: organização criada pela APEC (Cooperação econômica da Ásia e do Pacífico) e ASSEan (Associação das Nações do Sudeste Asiático).

I ENCONTRO CIENTÍFICO DO CCH - COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS - 15 E MAIO DE 2007

EDUCAÇÃO E TRABALHO NA ZONA RURAL BRASILEIRA: RELATOS DE PESQUISA COLETIVA.


Irizelda Martins de Souza e Silva
Kiyomi Hirose
Maria Aparecida Cecílio
27/02/2007



Resumo

As políticas públicas para zona rural brasileira e as condições de vida do trabalhador que depende do trabalho na produção agrícola é objeto de nosso estudo para compreensão do atendimento ao direito a educação a todos os brasileiros. Na perspectiva de observar sistematicamente a ação governamental e dos poderes institucionais para efetivação de políticas públicas de educação, entendidas na amplitude do artigo 1º da Lei Federal Nº. 9.394/1996 analisamos o que de efetivo podemos indicar como política de estado para a formação de educadores, para e dos povos do campo e para proteção do direito a infância




UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ
DEPARTAMENTO DE TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO
ÁREA DE POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO EDUCACIONAL


Irizelda Martins de Souza e Silva
Kiyomi Hirose
Maria Aparecida Cecílio


POLÍTICAS PÚBLICAS E EDUCAÇÃO: EDUCAÇÃO E TRABALHO NA ZONA RURAL BRASILEIRA

Para pensar a educação como componente das políticas públicas no Brasil a partir da década de 1990, elaboramos uma orientação a nossa leitura para o momento de comemoração dos 30 anos de existência do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Estadual de Maringá, pontuando o que compreendemos por políticas Públicas e por indissocialibidade de direitos.
Compreendendo que uma política pública é uma política de Estado, portanto, vigora de fato e por lei, podendo ser acompanhada na efetiva prática social de atendimento a direitos, por parte dos poderes públicos, instituídos e legitimados por meio dos mandatos eletivos compostos para uma periodicidade planejada nacionalmente, o direito a educação passa a ser uma prática indissociável na condução das políticas nacionais.
A indissociabilidade dos direitos sociais compreendida como garantia das condições básicas de sobrevivência de uma população pressupõe que:
· O atendimento educacional não é uma fração de direitos que deva ser pensada por percentuais mínimos de investimento financeiro.
· Constitui-se como um direito fundamental a ser exercido pelo poder público por permear a vida em todas as suas dimensões.
Ao apresentar o conceito de política pública como política de Estado, estamos considerando que:
· O instrumento de acompanhamento que baliza os mecanismos sociais para leitura crítica da Educação no Brasil a partir da década de 1990 pode ser explicitado nos princípios fundamentais do ordenamento jurídico do texto constitucional brasileiro em vigor desde 1988.
A partir do texto constitucional brasileiro temos um leque de possibilidades de interpretação do termo “Educação” e a definição de competências dos poderes públicos como os grandes gestores das políticas de Estado. Nesse universo da doutrina legal do “Estado Democrático de Direito”, destacamos nosso objeto de estudo: “as políticas públicas para zona rural brasileira e as condições de vida do trabalhador que depende do trabalho na produção agrícola”, para compreensão do atendimento ao direito a educação a todos os brasileiros.
Na perspectiva de observar sistematicamente a ação governamental executiva e dos poderes institucionais para efetivação de políticas públicas de educação, entendidas na amplitude do caput do artigo 1º da Lei Federal Nº. 9.394/1996, assim versado:
A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais,
Analisamos o que de efetivo podemos indicar como política de Estado para a formação de educadores, para e dos povos do campo e para proteção do direito a infância, considerando o contido no artigo 2º: A educação [...] tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Para desenvolver a análise pretendida, consideramos como referencial as ações dos Estados federados realizadas no atendimento às políticas do estado nacional para sinalizar as características do que entendemos por políticas públicas a partir dos parâmetros legais.
Observamos os planos de ação dos estados no âmbito da educação do campo no intuito de conjugar a leitura do plano nacional de educação que delimita o tempo e o espaço das ações dos governos nas políticas de estado às efetivas ações nacionais. Exemplificamos fatos localizados da não garantia de acesso e permanência na escola da zona rural, registrando o que consideramos adequado para o momento: o desaparecimento da escola rural.
Demonstrando alguns traços característicos da identificação das formas de gestão pública às quais nos remetemos na compreensão das diferentes políticas percebidas no cenário educacional brasileiro contemporâneo, apresentamos um pequeno BOX com o que entendemos qualificar programas governamentais, políticas afirmativas e políticas públicas que envolvem a dimensão educacional da vida dos brasileiros no início do século XXI. Observamos que entre programas e políticas os dados não se entrecruzam:
PROGRAMA
POLÍTICA AFIRMATIVA
POLÍTICA PÚBLICA
Corpo seco
Fomento parcelado
Equidade
Auto-alimentável
Emenda orçamentária
Dirigida a seguimentos específicos
Não tem rédias partidárias
Gestão administrativa predominante
Temporária
É componente do orçamento público da união
Convênios temporários
Ação Intermediária
Tem prazo e mecanismo de avaliação constitucional
Ação compensatória

Amortecedor da política pelega

Tem legislação própria
Medidas provisórias de atendimento a demandas
Repostas às organizações sociais frente aos estatutos (leis intermediárias entre ações afirmativas e políticas públicas)
É fundamento constitucional
Criação por decreto
Configuram-se como políticas sociais
É política de estado
Rédias políticas

Atende a protocolos internacionais
Ações monitoradas


Espaço e tempo determinado administrativamente


Impacto determinado pelo governante proponente do programa





COMENTÁRIOS:
Conforme informativo de n. 149/2007, do INEPE , 45% - das
Escolas do Brasil são rurais enquanto que 90% das matrículas do ano de 2006 são urbanas, apontando para uma incoerência política.

O que se pressupõe para essa leitura?
Recuperando pressupostos para compreensão dos dados coletados para o senso escolar de 2006, relembramos as ações propostas na esfera federal para garantir políticas públicas para formação de professores:

Uma pesquisa do MEC divulgada em 2003, para elaboração do sistema nacional de formação continuada e certificação de professores, publicada como matriz de referência por meio do MEC – secretaria de educação infantil e fundamental sob o tema: toda criança na escola (p. 29), tabela 2, informava que:
· 2000 professores foram entrevistados por regiões, demonstrando as respostas dos entrevistados para justificar a criação do programa.

· constatamos na publicação de lançamento da proposta um total de 1745 professores entrevistados na zona urbana, correspondendo a 87.3% das respostas obtidas durante a investigação.

· na rural, 255 professores foram entrevistados, representando um total de 12.8%, significando a falta de observância para a necessidade de paridade na pesquisa.

Observamos destes dados que as ações não são de políticas públicas e sim de programa governamental. Falam de e por políticas, mas enunciam propostas de programas nem sempre executados ou se executados, sofrem avaliações técnicas.

Constatamos o “ocultamento” de políticas públicas para educação do campo. O “ocultamento” representado por silêncio constitui espaço de políticas intermediárias, denominadas ações afirmativas, realizadas mediante a mobilização social das organizações civis e em “certa medida” configuram políticas sociais de presumida importância no controle social de demandas de atendimento a direitos educacionais.

Também observamos que, se 45% das escolas brasileiras são rurais, a justificativa para um programa nacional de formação de professores não encontra fundamento na realidade estatística publicada no Informativo n. 149 do INEPE/2007 assim como não encontra na proposta nacional idealizada para ação governamental de formação de educadores com base de informações 87 % urbana, significando limite de elaboração de políticas públicas dado o fato de que os dados não se entrecruzam. A questão é: O que justifica um programa considerando a unidade nacional na diversidade campo/cidade?

Fatos recentes explicam a falta de investimento nas escolas rurais e por esse motivo apresentamos como exemplo. No município de Maringá há posicionamento da gestão pública, contrário a manutenção e investimento nas unidades rurais, conforme publicado em “o diário do norte do Paraná”, no dia 03 de maio de 2007, pág. A3. Nos argumentos do secretário municipal de educação “Manoel Gomes”, - “o êxodo rural é inevitável e é uma tendência nacional. mais cedo ou mais tarde esses alunos vão acabar vindo estudar na cidade.” admite ainda que “a administração investe menos nas escolas rurais por causa do baixo número de alunos”.
Em dados gerais, a secretaria de educação informa à imprensa que no município de Maringá, existem 10 escolas rurais e distritais no ano de 2007 (assim definidas por usarem transporte escolar). Entendem que, em tese, o município possuiu apenas duas escolas rurais: João Gentilin e Victor Beloti, localizadas nas estradas Pinguim e Venda Duzentos. Na Victor Beloti há oferta de educação infantil e ensino fundamental, perfazendo um total de 211 alunos.
Na João Gentilin, o esquecimento da gestão pública demonstra as conseqüências, como por exemplo, alunos que percorrem 12 km para chegar em escolas da zona urbana de Maringá para garantia constitucional do ensino fundamental. São números de registro do êxodo rural-educacional denotado pela falta de manutenção da infra-estrutura e em investimento geral, o que leva a população da zona rural a mobilização diante do número de 70 alunos que ainda permanece resistindo a falta de garantias.
No entendimento dos pais, os problemas vividos são expressos como:
Qualidade diferenciada de ensino;
Falta de oferta de reforço escolar;
Existência de biblioteca em local inadequado (funcionando na sala de aula);
Oferta de aula só no período matutino;
Descaso do poder público para as necessidades de reforma predial
Ausência de supervisores e orientadores
Diferença de investimento entre ensino do campo e da cidade
Prevalência da visão empresarial (de investimento financeiro) frente a direitos educacionais
Desrespeito à infância no direito a educação em localidade próxima a sua moradia
Os pais não são ouvidos como contribuintes que avaliam a necessidade de manutenção das escolas rurais.

A ESCOLA E O TRABALHADOR: Um direito ou um castigo

No Brasil desde tempos mais remotos como o período colonial, a escola é negada ao trabalhador como um direito e apresentada como uma possibilidade de profissionalização aos poucos que ofereciam a força de trabalho que interessava. A vida das famílias de trabalhadores que se mantém na escola é motivo de grande feito para um povo que não tem a escola como direito. Considerando que a criação de instrução pública no período imperial atendia as aspirações dos contribuintes consumidores de carne fresca de garantirem a permanência das famílias nas redes de poder e ao mesmo tempo servia aos interesses de juntar crianças abandonadas e relegadas a própria sorte das ruas e praças em instituições de ofício, torna-se prudente lembrar que a dualidade ai presente, nos dias atuais retratam as transformações do pensamento educacional oficial sobre a finalidade da educação.
A república encontra na escola, nos tempos de urbanização, o instrumento de controle social mais eficiente no contentamento dos donos de fábricas e dos proprietários dos latifúndios, também como forma de institucionalizar o lugar da criança segundo sua situação econômica.
Se pobre vai para fábrica como instrumento e trabalho, para escolas agrícolas, se rica vai para os bancos escolares urbanos. Outros tipos de instituições são criados ao mesmo tempo para garantir que as ruas e as praças republicanas não fossem mais lugares de infância. As instituições de recolhimento dão conta de estrangular a infância e a adolescência não ocupada nas fábricas e nas grandes fazendas e que também não podem ocupar ruas e praças.
Nos tempos modernos, infância e escola não se entrecruzam necessariamente. Crianças diferentes possuem vidas distintas, mundos distintos. Obrigações e deveres para as trabalhadoras X o direito ao estudo e lazer.
Essa dualidade social que no fim do século XX continua a significar a negação do direito a formação escolar a todos os brasileiros. Continua a nos oferecer argumentos para pensar a escola. Qual o significado de escola para uma comunidade que assisti o desmantelamento das escolas rurais que atendem seus filhos e netos? Será que representa para os governantes um direito a cidadania ou apenas um lugar de recolher crianças para que não fiquem nas ruas?
Sabemos que na zona rural brasileira são raras as escolas que ainda existem e quando resistem ao tempo e falta de investimento. A transformação destas unidades em instituições distritais distribuídas às margens das rodovias para atender ao transporte escolar de professores são motivo de impossibilidade da criança trabalhadora em freqüentá-la.
Relembrando a criação do sistema educacional brasileiro oficializando a escola como lugar de infância e adolescência não ficamos livres daquelas outras instituições similares mais com objetivos não apenas de guardar ou preparar as crianças e os adolescentes para o trabalho, mas de punir pela falta de direitos a liberdade e ir e vir pelas ruas e praças.
Quais argumentos buscar para procurar compreender o espaço escolar como espaço de direito legal e humano.
Para Reimer,
A educação escolar é uma forma quase perfeita de imposto regressivo, pago por pobres para beneficiar os ricos. Escolas são sustentadas, principalmente, por tributos gerais que, no final, recaem mais sobre as classes menos favorecidas do que sua incidência direta poderia sugerir. (21)

A escola é um mero instrumento do controle da cadeia de produção, interessa a uma pequena população que explora a força de trabalho nas condições adequadas pela escola, ou quem sabe nem isso.
Reimer diz mais:
Os economistas do desenvolvimento arrazoam que os camponeses da índia, os lavradores do Alabama e os lavradores de pratos do Harlem não carecem de maior educação até que o mundo seja preparado para absorvê-los em melhores ocupações, e estas só podem ser cedidas por outros a quem, assim, deve ser dada prioridade educacional. (23)

Se na década de 1950 e 1960 Reimer analisava as escolas como um lugar de eleitos, o que diria das escolas brasileiras criadas a partir da década de 1960, momento em que as montadoras multinacionais fincam pé em território brasileiro? Os vinte anos que se seguiram nos mostraram que a seletividade para o ingresso escolar tornou-se implacável, principalmente para com a população rural e suburbana. E para os eleitos que tratamentos foram dedicados?

REFERÊNCIAS
BOLTEM INFORMATIVO DO INPE – 2007
MATRIZES DE REFERENCIA- DOCUMENTO PARA DISCUSSÃO DO SISTEMA NACIONAL DE FORMAÇÃO CONTINUADA E CERTIFICAÇÃO DE PROFESSORES, PROGRAMA: TODA CRIANÇA APRENDENDO – 2003. MEC – SEC. DE ED. INFTANTIL E FUNDAMENTAL.
BRASIL. Constituição Federal, 1988.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 1996.
REIMER, Everett. A escola está morta: alternativas em educação; tradução de Tony Thompson. Rio de Janeiro, F. Alves, 1983.
ARAPIRACA, José Oliveira. A USAID e a educação Brasileira. São Paulo, Editores Associados, 1982.

O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ. P. A3, de 3/05/2007.

EAD - 2004

EDUCAÇÃO DO CAMPO:
POLÍTICA PARA CONCRETIZAÇÃO DAS DIRETRIZES


Profª Drª Irizelda Martins de Souza e Silva
Profª Drª Maria Aparecida Cecílio
Profª Ms Kiyomi Hirose



A Educação do Campo abrange as comunidades dos assalariados rurais temporários, posseiros, meeiros, arrendatários, acampados, assentados, reassentados, atingidos por barragens, agricultores familiares, vileiros rurais, povos da floresta, indígenas, ilhéus, quilombolas, pescadores, ribeirinhos que retratam diversidade sócio-cultural. Ao longo da história do Brasil, as instâncias políticas oficiais, não priorizam a presença dessa população nas discussões sobre educação, ao contrário, a sociedade brasileira, ao fazer uso do senso comum, se dirigi a estas populações com expressões pejorativas: do ignorante, do iletrado que não tem cultura, do caipira Jeca, obrigado a trabalhar pesado, no cabo da enxada, a sobreviver do trabalho braçal.
A educação para a zona rural não tem sido objeto de destaque nas Constituições Brasileiras, embora a origem da sociedade brasileira seja eminentemente agrária. A população originária do campo não teve e, ainda não tem acesso à educação formal digna. O modelo educacional urbano é adaptado, quando da existência de escolas rurais, sob alegação da oferta do ensino de qualidade, ignorando as diferenças e especificidade da identidade campesina. Esse descaso dos dirigentes políticos da nação teria origem na economia agrária apoiada no latifúndio e no trabalho escravo? Existe um descompasso histórico em relação ao campo, ora é romantizado, ora é caracterizado pelo Jeca. Esse descompasso é impedimento ao reconhecimento do diverso e do diferente, em oposição à homogeneização. O campo é identificado como atraso pelo olhar do urbano, sob a justificativa da homogeneidade, que é própria do urbano, que trata o rural como se fosse um gueto.
A partir da promulgação da Lei Federal nº 9394/96 que se abre espaço para a Educação do Campo, preconizando:
Art. 28. Na oferta da educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação, às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente:
I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural;
II –organização escolar própria, incluindo a adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas;
III – adequação à natureza do trabalho na zona rural.

O avanço observado nesse Artigo, no que se refere aos parâmetros para definição de políticas públicas, institui uma nova forma de organizar a política de atendimento escolar no país, não se satisfazendo mais com meras adaptações do urbano para o rural, tem na especificidade e diversidade sociocultural: o direito à diferença e à igualdade, a meta para os planos estaduais de educação para elaboração de diretrizes curriculares.
As Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas Escolas do Campo, instituídas na Resolução CNE/CEB nº 1, 3 de abril de 2002 (Conselho Nacional de Educação/Câmara da Educação Básica), aprovadas pelo CNE, seguindo o Parecer e voto da relatora conselheira Profª Edla de Araújo Lira Soares, manifesta [...] a decisão de propor, supõe, em primeiro lugar, a identificação de um modo próprio de vida social e utilização do espaço, delimitando o que é rural e urbano sem perder de vista o nacional (Parecer 36/2001 do CNE/CEB, p.29).
A partir dos anos de 1990, os movimentos sociais organizados percebem que a categoria rural era insuficiente para categorizar a Educação do Campo. Antecede, então, a essa diretriz, mobilizando-se de forma articulada na luta pela construção de política pública para a Educação do Campo. No ano de 2005, o Ministério de Educação (MEC), organiza Seminários em 23 Estados da Federação, com o objetivo de discutir a Educação do Campo. O Estado do Paraná antecipou à organização, em nível federal. Promoveu de 9 a 11 de março de 2004, no Centro de Capacitação de Faxinal do Céu, no Município de Pinhão/PR, o I Seminário Estadual da Educação do Campo, com o tema: Construindo Políticas Públicas.
O II Seminário de Educação no Campo do Paraná, 7 a 9 de abril de 2005, realizado em parceria – SEED/PR e MEC, objetivou diálogos com entidades e movimentos sociais no planejamento e implementação de políticas e diretrizes em nível Estadual e Federal. Esse Seminário contou com a representatividade de autoridades federais e estaduais (CEE/PR, SEED/PR, ANCA, SECAD/MEC, INCRA/PR, UNIOESTE, EMATER, Deputado Estadual/PR), dos movimentos sociais e universidades comprometidas com a Educação do Campo.
O Seminário foi marcado com o posicionamento do Professor Arnaldo Vicente, do Conselho Estadual de Educação, relator do Processo nº 1344/03, aprovado em 8/12/2003, conforme o Parecer nº 1012/03, relativo ao pedido de autorização para funcionamento da escola itinerante na área rural, na defesa das Escolas Itinerantes. Na análise, compreendeu a contraposição aos trabalhos educativos desenvolvidos nos acampamentos, como proteção do direito à educação para todos os brasileiros. Defendeu a mística no processo educacional vivida nos movimentos sociais do campo, resguardando o direito à subjetividade da formação na prática do ensino como compromisso com a educação. A defesa da Escola Itinerante realizada pelo conselheiro é relatada como desafio de um modo progressista de fazer a escola do campo.
Grein (2005), representante do Setor de Educação da Associação Nacional das Cooperativas Agrícolas dos Assentados-ANCA, marcou sua fala aos participantes do Seminário pela leitura do poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, publicado nas Diretrizes Nacionais para a Educação no Campo:
“Esta cova em que estás,
com palmos medida,
É a conta menor que tiraste em vida,
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe,
deste latifúndio.
Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
É uma cova grande
para teu pouco defunto,
Mas estarás mais ancho
que estavas no mundo
É uma cova grande
para teu defunto parco,
Porém mais que no mundo
te sentirás largo.
É uma cova grande
para tua carne pouca,
Mas à terra dada
não se abre a boca.

Com o poema, resgatou na história do Brasil um passado que tende a se perpetuar. Evidenciou a subordinação do campo à cidade, contextualizando a história de luta dos movimentos sociais pelo direito a educação. Referiu-se a I Conferência Nacional por uma Educação Básica no Campo, proposta no encontro de 1997 e realizada em 1988, a partir da qual o MEC assinou com os movimentos sociais e universidades, o compromisso de desenvolver nos Estados, encontros em preparação para II Conferência e definição de políticas estaduais para Educação do Campo.
Os Movimentos Sociais do Campo do Estado do Paraná realizou o I encontro de Educação do Campo (1999) com a participação da Associação Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário-APEART, Comissão Pastoral da Terra, Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural-ASSESOAR, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra-MST e outros. O objetivo principal foi a preparação para a II Conferência Nacional, que resultou no compromisso de articulação nos Estados de espaços para debater a educação realizada no campo e a implementação de políticas públicas nacionais e estaduais.
A nucleação de escolas públicas na periferia das cidades e não no campo, foi constatada como primeira ação de reestruturação da educação rural. A ocorrência dessa forma de nucleação é efetiva na Região Noroeste do Estado do Paraná.
Essa estratégia para os movimentos sociais do campo tem o significado de negar a educação aos trabalhadores do campo, sob o argumento de que, para se trabalhar no campo, não há necessidade de escolaridade, ancorado na idéia do trabalho rudimentar e sem avanço tecnológico. A este conceito coaduna-se a idéia do Jeca, do caipira. O preconceito é a primeira barreira a ser transposta. O discurso entre os movimentos é de defesa do “Campo como espaço de vida do cidadão que tem direito de ser completo no campo”. Tais encontros tiveram como mérito recolocar, sob outras bases, o rural e a educação que a ele se vincula, a exemplo da formulação das diretrizes nacionais para educação básica no campo, que como reconhece Grein (2005) oferece a possibilidade de garantir o direito de ter educação onde estamos, seja na cidade, no campo, no hospital, no cárcere.
O II Encontro Estadual de 2000 (realizado concomitantemente com a II Conferência Estadual por uma Educação do Campo, de 2 a 5 de novembro de 2000), em Porto Barreiro, reuniu 450 educadores e educadoras de 64 municípios representando 14 organizações governamentais e não governamentais dos movimentos sociais, sindicatos rurais e universidades (conferir a Carta de Porto Barreiro, caderno nº 2, da Articulação Paranaense: “Por uma Educação do Campo”). O compromisso deste evento marcou a iniciativa de continuar os projetos de Educação no Campo e trabalhar na realização de proposições para a II Conferência Nacional. Foram definidos encaminhamentos de parcerias para os cursos de Ensino Médio (Escolas Técnicas), curso de Pedagogia junto às Universidades Federal do Paraná, Estadual de Maringá, Estadual de Cascavel, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural; atender as famílias em situação de itinerância nos acampamentos, garantindo a educação básica.
A II Conferência Nacional por uma Educação do Campo – CNEC, Luziânia/GO, 2 a 6 de agosto de 2004, reuniu 1.100 participantes representando Movimentos Sociais, Movimento Sindical e Organizações Sociais de Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo e da Educação, das Universidades, ONGs e de Centros Familiares de Formação por Alternância, de Secretarias Estaduais e Municipais de educação e outros órgãos de gestão pública com atuação vinculada à educação e ao campo, que assinaram a Declaração Final Por uma Política Pública de Educação do Campo.
Os compromissos selados e divulgados foram remetidos à uma agenda básica de ações na defesa de “um tratamento específico da Educação do Campo”, considerando como pauta de articulação entre campo e cidade “a importância da inclusão da população do campo na política educacional brasileira”, para garantia de acesso e permanência e da existência de “um projeto político pedagógico” para o campo, contemplando “a diversidade dos processos produtivos e culturais, que são formadores dos sujeitos humanos e sociais do campo”.
Trabalhando na elaboração de políticas públicas universais que garantam direitos sociais e humanos, os participantes da plataforma nacional definiram a pauta de ações articuladas entre campo e cidade como metas a serem atingidas na implementação das diretrizes nacionais.
Vinte e duas “ações prioritárias” formaram os eixos de trabalho na articulação nacional por uma educação Básica no Campo e Por uma Política Nacional de Educação no Campo, compreendendo a articulação, coordenação da elaboração de uma política pública, “em parceria com o governo federal e movimentos sociais”.
No Estado do Paraná, dois Seminários foram realizados para elaboração de Políticas Públicas para Educação do Campo. O II, de 7 a 9 de abril de 2005, foi realizado como proposta de fortalecimento dos Movimentos Sociais na elaboração das Políticas Estaduais e Municipais.
Os movimentos sociais do campo mobilizam e defendem nos eventos (Encontros, Seminários, Colóquios, Conferências, Simpósios entre outros) a elaboração de políticas públicas visando o respeito à Educação do Campo, na defesa do ensino e da pesquisa, no resgate das dimensões da educação e do trabalho comunitário, extensivo aos diferentes grupos.
Segundo Munarin (2005), o Brasil enfrenta problemas sérios na articulação da Educação do Campo. Escolas do campo são fechadas, há falta de material didático para atender a especificidade e os existentes são inadequados, falta professor formado. Declara que, no Brasil, no ano de 2005, 9% dos professores do campo é de formação superior e no meio urbano, 38% são formados sem cursos superiores. Afirmou que não existe dotação financeira para Educação do Campo. Independentemente deste fato, o Estado do Paraná, conta com coordenação pedagógica para o campo na Secretaria de Educação Estadual, o que não é realidade em todos os Estados do país, confirmando as Declarações Nacionais, dos anos de 1.998 e 2.004, publicadas nos cadernos “Por uma educação básica no campo”.
Os conteúdos e metodologias inadequados são constatações que comprovam a ausência da especificidade da educação do campo, falta salário e há sobrecarga de trabalho para os educadores do campo. O MEC registra que 50% das escolas do Brasil estão no campo, cada qual, com uma sala e com número mínimo de estudantes. Observou que 67% das crianças do campo são transportadas para as cidades. Muitas prefeituras constroem escolas nas periferias das cidades para matricular alunos do campo. Para Munarin (2005), problemas como a exclusão não discutida é corrente nesse processo. As conseqüências da migração campo/cidade constituem fatos como a prostituição, o trabalho precoce e o abandono do campo. O agravante é que a população campesina é taxada de ignorante ao chegar na cidade.
A universalização dos direitos sociais é base da relação de luta popular nas instâncias dos movimentos sociais para fazer o poder público garantir a educação pública e gratuita, como direito do cidadão camponês e dever do Estado. Em resposta a este posicionamento político dos Movimentos Sociais, o Estado, por meio do MEC, começa a organizar a discussão, e o CNE passa a ser espaço de luta social, enquanto estrutura oficial. As primeiras diretrizes nacionais para Educação do Campo foram aprovadas porém, não implementadas pelo MEC.
Em 2004, a II Conferência Nacional tornou-se o símbolo da possibilidade de articulação de uma plataforma para trabalhar por um objetivo único: Educação do Campo. É o marco do compromisso entre poder público e Movimentos Sociais do Campo e da cidade no planejamento da educação nacional, considerando que a partir de 2000, as mobilizações sociais em defesa da Educação do Campo conseguiram fazer-se ouvir, reivindicando a parceria do Estado na execução da tarefa de elaboração de políticas públicas, articulando-se com os governos nas instâncias federal, estadual e municipal.
No ano de 2005, o MEC, em respeito à Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB de 1996, organizou a funcionalidade dos sistemas do ensino para o atendimento das especificidades do campo aprofundando a compreensão dos eixos aprovados nas Conferências Nacionais: cultura, trabalho, clima. Foram criados diferentes Fóruns de debates para uma ação coordenada na execução das propostas de elaboração de políticas, implementação, divulgação e normatização das diretrizes.
Em função dos encaminhamentos políticos definidos como compromisso da plataforma nacional, no Paraná a discussão das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação do Campo trouxe para o II Seminário a Conselheira Nacional, a relatora das diretrizes, Professora Edla de Araújo Lyra Soares, presença esclarecedora no desafio de justificar a proteção do direito à educação do camponês.
Para o ano de 2005 a meta da Coordenação da SEED/PR é a de formação de duzentos educadores e educadoras itinerantes, de participação na revisão do Plano Nacional de Educação e implantação das diretrizes curriculares, respeitando os direitos dos diferentes povos, considerando que o segundo eixo das diretrizes é a cultura dos povos do campo.


BIBLIOGRAFIA:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: 1988. Brasília-DF: Câmara dos Deputados, 2002.

______. II Conferência Nacional por uma Educação do Campo–CNEC, Luziânia/GO, de 2 a 6 de agosto de 2004.

______. Lei Federal nº 9394/96, aprovada em 21 de dezembro de 1996.

______. Parecer nº 36/200-CNE. Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo; Resolução 1/2002 –CNE. Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo.

Carta de Porto Barreiro, caderno nº 2, da Articulação Paranaense: “Por uma Educação do Campo”, s/d.

GREIN, Maria Izabel. II SEMINÁRIOS ESTADUAIS: educação e diversidade no campo. Faxinal do Céu, 2005.

MUNARIM, Antonio. II SEMINÁRIOS ESTADUAIS: educação e diversidade no campo. Faxinal do Céu, 2005.

PARANÁ. Escolas Itinerantes: Processo nº 1344/03-CEE e Parecer nº 1012/03-CEE, aprovado em 08/12/2003, relator Arnaldo Vicente.

SOARES, Edla de Araújo Lira. II SEMINÁRIOS ESTADUAIS: educação e diversidade no campo. Faxinal do Céu, 2005.

http.//www.forum.direitos.org.br/?=node/print/3463. Acessado em 27/5/05: Delegacia do Trabalho liberta 85 trabalhadores escravos em madeireira no Paraná.

ATIVIDADES SUGERIDAS:
Leitura das Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas Escolas do Campo. Elaborar roteiro para visitas aos acampamentos, assentamentos, cooperativas de produção familiar e escolas campesinas.
Construir memória das leituras e visitas.
Socializar, em painéis, mesas redondas ou seminários, as experiências efetivadas neste conteúdo.

HISTEDBR - 2004 - UEM


A UNIVERSIDADE:
O OLHAR DE ÁLVARO VIEIRA PINTO

ISNB 85-86941-39-5



Profª Drª Irizelda Martins de Souza e Silva-UEM
Profª Kiyomi Hirose-UEM
Profª Luci Frare Kira-FAFIMAN/UNIMEP
Profª Drª Maria Aparecida Cecílio-UEM

EIXO 3

TRAB. 4 E 9

As opiniões de Vieira Pinto acerca da dinâmica da universidade permitem-nos buscar elementos para uma análise sobre a educação universitária no período dos anos sessenta, cuja articulação não foi apenas na reflexão sobre a criação da universidade, mas seus trabalhos pontuam a respeito de um projeto de universidade com engajamento de políticas de educação pública, a respeito da questão do trabalho, da questão cultural, e acima de tudo da democracia na educação. Não é somente o enfoque sociológico/histórico que transparece em seus trabalhos, mas também, o pedagógico. Trata-se da dinâmica da educação brasileira em consonância com a economia do país, que estava movida pelo avanço industrial, e também com o caráter público da universidade.

Usaremos como pano de fundo o seu livro A questão da universidade, 1961[1], publicado num momento pré-revolucionário, quando ele se posiciona como um revolucionário das idéias, contra o conservadorismo imposto pelos grupos dominantes naquele momento histórico. Ele tem como maior tese, e que procura defender ardentemente, nesta obra, a de que “a luta pela reforma universitária tem de travar-se muito mais fora do que dentro da universidade” (1986, p.61).

Foi um dos pensadores, colaboradores e fundador do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), considerado por muitos com uma “fábrica de ideologias”, sendo fechado no Rio de Janeiro pelo golpe de 1964. Era um espaço no qual famosos filósofos, historiadores, sociólogos e críticos literários concebiam o povo como entidade que extrapolava as classes sociais, que incluía trabalhadores, sem dúvida, mas também camponeses e grande parcela da classe média, da burguesia, do empresariado, e da intelectualidade nacional. O “povo” [...] “como massa amorfa, sem valor intelectual, simples força de trabalho braçal , era visto como a grande união de todos que lutavam pela emancipação do país” (1994, p.81).

Saviani (1985, 1994, p.07), ao apresentar a segunda edição do livro de Vieira Pinto, nos fala da coragem desse intelectual na luta, de certo modo agressiva, contra o elitismo, o conservadorismo, o arcaísmo e a alienação das estruturas universitárias a serviço da dependência cultural imposta pelos interesses da classe dominante da sociedade.

Percebemos no início do livro, a sua grande questão com relação à reforma universitária no país, que naquele momento histórico, a sociedade lutava grandemente também por outras reformas de base social. Ele nos leva a pensar, nos caminhos das batalhas já percorridas em busca das questões da universidade, numa etapa importante da história da educação e da economia brasileira, e também, nas relações importantes existentes entre sociedade e universidade, o que não deixa de ser um componente social de suma importância para o povo brasileiro, carente de qualificação profissional.

Ele descreve de “universidade”, naquele momento, como um grande número de instituições e organizações escolares, sem dizer, no entanto, as diferenças existentes entre elas e afirma que a universidade é uma entidade ou nada mais que um conjunto de estabelecimentos de ensino.

A respeito dos docentes, o autor procura tratar de maneira coletiva, referindo-se à capacidade intelectual e à idoneidade moral dos professores universitários. Ele achava que se tornava necessário “ajudar, pela crítica sincera e sem ódios pessoais, a construir a verdadeira universidade de que o povo brasileiro necessita, como de um dos mais importantes instrumentos para a conquista de sua cultura, riqueza e liberdade” (1994, p.10) .

A década de sessenta, é chamada de momento pré-revolucionário, no qual as camadas populares estão se convencendo de que só a ascensão social fornecerá caminhos para serem realizadas as reformas que consideram urgentes. Essas camadas não projetavam nenhuma revolução violenta, desde que a classe dominante realizasse os seus objetivos e as mudanças possíveis na sociedade, entre elas, a reforma da universidade tradicional do país.

Vieira Pinto (1994, p.13) analisou a questão da reforma universitária, enfatizando que:

É, portanto, num quadro desta espécie, numa sociedade em esforço por superar o subdesenvolvimento secular, visto haver descoberto as causas desse estado e se apoderado, na consciência de suas massas, das idéias indispensáveis para criar a força social capaz de realizar a mudança projetada, é nesse quadro que se apresenta o problema da reforma da universidade. É de fundamental importância que, desde o primeiro momento, se coloque o problema sobre esse fundamento, do contrário cairíamos nas velhas, pedantes e fúteis discussões acadêmicas sobre planos para melhorar o ensino superior, leis de reformas, e tantos outros divertidos e inofensivos debates, de que se encarregam alguns pitorescos cavalheiros, com altos cargos no Ministério da Educação ou cátedras nas escolas rotineiras, que julgam abrilhantar com a sua presença. O problema agora não somente é outro na essência, como se estabelece em circunstâncias outras: trata-se de discutir a questão da reforma da universidade na fase pré-revolucionária, atualmente vivida pela sociedade brasileira.


As palavras do autor são permeadas de idéias que nos levam a indagar: Por que tantas reformas estruturais se não tínhamos uma política pública para o ensino superior no país? O que se apresentou e continua a apresentar são as estratégias de controle social pelo Estado.

Vieira Pinto ao escrever sobre a questão da universidade levanta problemas que nos ajudam a (re)pensar sobre a importância dos estudantes se organizarem[2], na luta ao acesso à universidade. A organização dos estudantes tinha um significado que extrapolava a questão universitária, pois pertencia à paisagem sociológica da nação, pelo embate social, que naquele momento histórico, faz da UNE uma instância de tomada de consciência dos estudantes quanto ao avanço das idéias e atitudes imperialistas. A leitura de Vieira Pinto orienta na elaboração de um paralelo com a nossa realidade, de 2004, nas universidades, quando observamos que o estudante não se mobiliza, de modo consciente, para lutar por questões ideológicas, políticas, econômicas, sociais, qualidade do ensino, qualidade dos docentes, pesquisa e extensão. Notamos que a luta está sendo realizada somente por docentes, que reivindicam, preferencialmente para a melhoria salarial, transformando-se em operários da educação.

Vieira Pinto (1994, p.13), sobre o movimento da reforma universitária realizada pelos estudantes, dizia:

Eis por que são os estudantes - e não os professores – que assumem o comando da luta social por essa reforma, pois apenas eles constituem o instrumento capaz de levá-la a efeito, e igualmente são, pela práxis que possuem, a origem das idéias que devem servir para formular tal reforma. Isto se dá porque os estudantes, no embate público entre a parte decadente, embora ainda dominante, e a parte emergente da sociedade, tendem necessariamente a se identificar, como a coletividade, no país atrasado, às forças sociais ascendentes, e, de modo muito especial, em vista de suas qualificações intelectuais, formar naturalmente as fileiras da vanguarda de tais forças. Explica-se, assim, que sejam os estudantes, e não os docentes, os que se inquietam em promover o movimento que terá por desfecho a reforma universitária.

A universidade, segundo o autor, tinha um sofrido papel na representação das forças sociais decadentes. Portanto, “tinha de caber à universidade do país atrasado e em regime de colonização imperialista, ser o principal instrumento da alienação cultural inevitável em tal fase histórica” (1994, p.14).

Para Vieira Pinto (1994, p.14), a alienação era clara:

Fabricar doutores era a sua natural e única função, cumprindo-a a contento. A universidade não era motivo de reclamações, porque os poucos que a procuravam sabiam antecipadamente que nela conseguiriam entrar e encontrariam o ensino que os habilitaria ao que desejavam ser.

A universidade muda a sua concepção elitista. Passa a ser procurada por enorme contingente das classes populares, que desejavam ter conhecimentos que os preparassem para o futuro mercado de trabalho. O ponto principal identificado no movimento estudantil foi a atuação das Instituições do Ensino Superior (IES) quase nula no progresso, sua inadequada correspondência às exigências que o país fazia com relação à mão-de-obra qualificada. Como sabemos, o país estava em grande processo de industrialização, principalmente pela entrada das multinacionais.

A construção de um novo significado para a reforma da universidade, naquele momento, era muito importante, mas em muitos aspectos, por mais útil que fosse, era secundário. Tinha que haver uma grande transformação social:

Trata-se de transformá-la na essência, isto é, de fazê-la deixar de ser um centro distribuidor de alienação cultural do país, para convertê-la no mais eficaz instrumento de criação de nova consciência estudantil, direta e exclusivamente interessada em modificar a estrutura social antiga e injusta, substituindo-a por outra, humana e livre. (1994, p.15),


Nesse momento, a reforma da universidade não é apenas um trabalho de natureza jurídica, pedagógica, institucional, como diz o autor. Era preciso haver mudança e transformação da sua essência e da realidade sócio econômica e política em que estava inserida. Percebemos, em outro comentário do autor, com relação à reforma da universidade em um país subdesenvolvido. Era necessário sair da submissão dos países imperialistas que o impediam de crescer e progredir, e de produzir uma cultura própria, independente. E, acima de tudo, era preciso formar uma consciência política. Assim, entendia que, sem a grande união dos estudantes com outras forças progressistas, como os camponeses e os operários, igualmente em luta, não haveria reforma universitária e vice-versa, com relação à luta dos camponeses e dos operários contra a estrutura desumana e colonial.

Na análise sociológica do autor, para orientação política dos estudantes, entendemos a definição da essência da universidade no Brasil, naquele momento como:

universidade é uma peça do dispositivo geral de domínio pelo qual a classe dominante exerce o controle social, particularmente no terreno ideológico, sobre a totalidade do país. Se tal é a essência da universidade, desde logo se vê que o problema de sua reforma é político e não pedagógico” (1994, p.19).

O autor continua a sua elaboração crítica, agora, referindo-se aos pedagogos, questionando o porquê de ignorarem os jovens que estão fora da universidade. “Por que motivos são estes, e só estes, os alunos que a sociedade envia à universidade?” (1994, p. 21). Assim, a reforma universitária deveria buscar informações junto àqueles que não tiveram acesso à universidade. Neste raciocínio, enfoca duas questões pertinentes: “Que relações há entre universidade e o restante do dispositivo de domínio da classe dominante? E, que relações há entre a universidade e o país, como totalidade?” (1994, p. 24).

Para discussão da essência da universidade, o autor cita sete características das relações entre as opressões internas e de submissão externa. Quanto à primeira característica, a universidade “representa o instrumento mais eficiente para assegurar o comando ideológico da classe dirigente, porque a ela incumbe a produção dos próprios esquemas intelectuais de dominação” (1994, p.25). Nesse eixo de compreensão vê que a “classe dominante solicita da universidade acima de tudo as idéias que justifiquem o seu poderio” (1994, p.25), destaca que ”a classe dominante produz a universidade para que esta produza os sociólogos e juristas que defendam aquela classe” (1994, p.26). A segunda característica é que a “universidade assegura a colocação dos elementos intelectuais ociosos da classe dominante”, e afirma ainda “de todas as acusações que se possam assacar contra a universidade só uma não é verdadeira: a que a incrimina de ineficiente. Considerada a sua real estrutura, sua relação com o sistema de forças sociais a que serve, a universidade brasileira é, ao contrário, maximamente eficiente, pois produz com perfeição os resultados que dela se devem esperar, dada a sua natureza”. (1994, p.27). Na terceira característica ressalta que a “universidade organiza o cartório para o reconhecimento das funções proveitosas aos interesses da classe dominante. Sua natureza cartorial é evidente, pois a ela compete o Registro de Títulos e documentos doutorais, indispensáveis à admissão em certa camada na sociedade” (1994, p.28).

A quarta característica é a de que a universidade “absorve e amortece o surto da consciência popular, representada pelo elemento estudantil descomprometido com os poderosos” (1994, p.29). Quanto à quinta função, “a relação com a classe dominante, naturalmente a mais forte economicamente, se manifesta neste importante papel exercido pela universidade: o de conservar parte substancial dos recursos públicos do país em poder dessa mesma classe” (1994, p.29). A sexta função eminente da universidade consiste “em formar os representantes políticos da classe dominante” (1994, p. 31). Na sétima e última característica, podemos observar os serviços eficientes que a universidade presta aos grupos dominantes: “o mais grave é que a universidade incute no espírito do aluno a idéia de que a aquisição da cultura destaca o povo. Por isso, a instituição expulsa o povo do direito à cultura” (1994, p. 33).

Revisando tais características e funções da universidade, ela se impõe como um grande instrumento de manipulação pelas classes dominantes sobre as classes populares, utilizando-se da educação e da cultura popular como forma de opressão e submissão à sua ideologia.

Para o autor, um aspecto essencial é o caráter de processo que a cultura possui e, outro é o de que nas sociedades divididas em classe a cultura tem necessariamente base de classe: “é evidente que assim há de ser, pois se a cultura está ligada, pelo trabalho e pela ação, às relações do homem com a natureza e com os outros homens” (1994, p.40). Comenta que “a universidade do país subdesenvolvido é necessariamente inculta” (1994, p.41). Para Vieira Pinto, ela é inculta pelo duplo sentido:
é inculta porque nela não há condições para engendrar, mesmo em parte, a verdadeira cultura, dada a situação de classe da maioria dos que a teriam, por hipótese, de produzir; e segundo, mesmo que houvesse tais condições, a repercussão intelectual da universidade, fazendo-se em um meio social dividido, não alcançaria o povo em geral e, portanto, daria ao produto, mesmo suposto intencionalmente autêntico, saído das instituições universitárias, cunho falso, timbre estranho e irreconhecível pelas massas” (1994, p.42).

Como conseqüência dessa forma de ser, a universidade sempre se comporta de maneira submissa aos encantos do imperialismo, mesmo havendo muitos mestres com idéias contrárias. Este fato é bem claro no período do acordo entre o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID)[3], quando o governo brasileiro solicitou à instituição estrangeira ajuda para engajar, mesmo que parcialmente, aos interesses culturais e ideológicos do imperialismo, via ensino superior. O acordo se deu por meio cooperação financeira e assistência técnica, objetivando a modernização e o assessoramento para a própria administração pública. Isto, em linhas gerais, mais tarde, configurou a base da proposta da lei da reforma do ensino superior no país, que culminou com a Lei Federal nº 5540/68.

Ainda, em relação ao domínio imperialista, Vieira Pinto (1994, p.45) comenta:

Este mal é inevitável, enquanto persistirem as atuais divisões sociais, pois é evidente que agentes dos interesses internacionais, sabendo do indiscutível prestígio da universidade e do seu papel na formação da mentalidade das novas gerações intelectuais do país, tudo farão para se introduzir nesse centro vital e influir nele ao sabor dos seus desígnios. É o que observamos na pressurosa atenção com que se volta para os institutos e órgãos do ensino superior a solícita e generosa colaboração das fundações estrangeiras, o oferecimento do envio de “missões” e “especialistas” para reorganizar o nosso ensino, o despacho de pedagogos para os nossos institutos de pesquisa educacionais e tantas outras modalidades de infiltração imperialista, todas com o fim de impedir que as nossas universidades adquiram a única autonomia pela qual nunca se interessaram, a de ser expressão dos exclusivos interesses da cultura e da economia brasileira. A tarefa de tais emissários externos é extraordinariamente facilitada pelas condições intrínsecas, próprias e inevitáveis do nosso subdesenvolvimento e pela dependência geral do país.

Vieira Pinto afirma a inexistência de um passado universitário e como conseqüência, permite-se criar com liberdade, assim que houver condições sociais para isso, a nossa própria universidade, sem precisar ficar nos espelhando nas idéias importadas, que nem sempre se encaixam nos interesses sociais e políticos, pois não estamos ligados a qualquer tradição. A propósito do problema dos valores, podemos citar dois grandes aspectos da universidade que são de extrema importância para o autor: “sua inevitável função social conservadora, e a peculiar natureza das questões ligadas ao provimento de suas cátedras” (1994, p.48).

Na análise que produziu sobre a questão das classes sociais, Vieira Pinto (1994, p.51) destaca alguns pontos importantes. O primeiro: “que classes compõem a universidade? A burguesia, classe dominante na sociedade brasileira, em geral, é igualmente dominante na universidade”. Outro aspecto que merece destaque é que num país, no qual a universidade é um instrumento de controle das camadas sociais espoliadoras, a própria autonomia mostra-se prejudicial aos interesses do povo, pois auxilia a manter distância entre o controle social e as classes trabalhadoras. No olhar do autor, “só se admitirá a autonomia da universidade quando esta pertencer ao povo” (1994, p.53).

Outro aspecto que merece destaque é o ingresso na universidade. O vestibular, para o autor, não atua como um exame, mas como uma agressão à inteligência do candidato. Quando o aluno não passa nos exames, a culpa e a responsabilidade são do candidato, que foi mal preparado, em conseqüência da formação do seu professor, que também foi mal preparado.

E, quando o candidato vinga a sua vaga, estando dentro da universidade, ele tende a seguir um dos dois aspectos ou tendências contraditórias que a instituição apresenta: ou ele se une à classe dirigente do país, ou ele se alia como membro militante, à classe trabalhadora. O autor observa com orgulho que, mesmo o aluno estando submetido a essas duas tendências, a sua grande maioria ainda opta por uma ação de luta em defesa das massas exploradas e contra os grupos de exploradores. Vieira Pinto, procurou acreditar que as exigências e a grande luta dos estudantes naquele momento da reforma universitária, fossem muito além dos prédios universitários, porque ele acreditava e queria que os alunos acreditassem que a maior luta pelo ensino superior deveria acontecer fora das instituições.

A seguir, Vieira Pinto (1994, p. 61,62) fala, nas entrelinhas, que a grande maioria dos professores e a da parte administrativa das universidades é formada por indivíduos alienados e procura explicar de forma clara e objetiva como os estudantes e a sociedade deveriam se comportar diferentemente diante da reforma universitária. Assim diz ele:

[...] a reforma tem de ser feita de fora para dentro, por via política, e por força do potencial social adquirido pela classe estudantil nas suas ações de rua, na participação progressiva em todos os grandes problemas que dividem a opinião pública, enfim, numa luta cujo palco é muito menos a aula que o comício.
[...] A classe professoral, como sabemos, não existe por si, com seus ruinosos efeitos sobre o processo do nosso desenvolvimento, mas existe por outra, a camarilha financeira e as altas cúpulas políticas, que favorecem a indolência cômoda ou a agitação estéril dos personagens docentes.
[...] Os estudantes devem, pois, compreender que de um lado são forçados a se opor aos professores estacionários e obscurantistas, aos diretores obtusos e façanhudos, aos reitores pomposos e ineficientes; mas de outro lado , sabem que não devem esperar grande coisa dessa luta.
[...] Sua luta tem de ser em grande parte indireta, e só em reduzida fração se trava no interior da universidade, sobre assuntos ou casos episódicos ocorridos. A pregação da reforma universitária tem de ser feita ao povo, como aliás a das demais reformas exigidas pelo país, e não aos eruditos catedráticos que nela só vêem um motivo de perturbação do sono.

A luta dos estudantes diz respeito não apenas à reforma e a transformação da universidade, mas a uma transformação geral da sociedade porque, entendiam eles, que a universidade era apenas um caso particular nesse contexto social e que, sozinhos, jamais conseguiriam forças suficientes para lutar contra a classe dominante; portanto, deveriam se unir aos outros setores da sociedade. Com a política estudantil da UNE, o estudante brasileiro poderia assumir um papel e tomar consciência do seu papel político e social na luta por um ensino e por uma sociedade mais justa. Nessa luta, a classe dominante se sentiu ameaçada por um exército inimigo, formado por estudantes e trabalhadores. Lança mão de violentos recursos “a violência física”, já que ocorreram agressões a eles, proibindo-os de fazerem atos públicos e culturais, e a “propaganda ideológica”, declarando que “o estudante só deve estudar”. Numa perspectiva histórica reformista, no Brasil dos anos de mil novecentos e sessenta, onde existiam condições para essa violência estrutural e dominação das forças econômicas exploradoras, a escola formal superior, se tornava desnecessária aos interessantes dominantes. Contraditoriamente, poderia formar exércitos de jovens esclarecidos e com espírito político, para combater o estado de exploração.

Diante deste contexto de execução da reforma universitária, os questionamentos levantados pelo autor equacionam a problemática da reforma com as seguintes indagações: “para quem”
é preciso fazer a reforma? “Que universidade” se deve ter? E, finalmente, como “organizá-la”? Nas palavras de Vieira Pinto, a universidade sempre foi instrumento ideológico das classes dominantes e está organizada também em função de uma pedagogia ideológica, o que não deixa de ser um dos fenômenos de superestrutura da classe dominante.

Para estes, o ensino superior deve sempre satisfazer os interesses e as necessidades da modernidade. E, para as massas, representadas pelos alunos, a cultura passa a ser instrumento ideológico. A universidade, para a classe dominante, serve para a perpetuação da sua ideologia e, para as massas, nada mais é que um caminho de ascensão histórica. A classe dominante está preocupada com a organização interna das universidades, com gigantescas e modernas construções, menos com o mais importante: o caráter ideológico para as mãos das massas trabalhadoras, que são a maioria dos alunos.

Para Vieira Pinto (1994, p.77),

A essência da reforma universitária é impedir a reprodução da classe dominante, a qual tem na universidade sua fábrica mais importante, no que se refere aos expoentes intelectuais.
[...] Não haverá reforma da universidade sem interrupção do processo de auto-reprodução da classe dominante, pois esta sustenta, e sustentará a universidade, para que fabrique nova geração da mesma classe dominante.
[...] A classe dominante, num país em processo de acelerado desenvolvimento, precisa cada vez mais da colaboração dos técnicos.

Vieira Pinto (1994, p.73) apontou duas alternativas da reforma universitária: “deve a universidade continuar a servir aos interesses da atual classe econômica e politicamente dominante”, ou deve “se organizar em função dos interesses das classes trabalhadoras, ainda não dominantes, mas em inevitável ascensão”.

Uma dualidade de definição sociológica existente no ensino superior é identificada como reducionista e atribuída aos pedagogos[4], que coordenavam o ensino humanístico e tecnológico. Para o ensino tecnológico, o fim era criar cargos e trabalhos eficientes; para o ensino humanístico, seria a ocupação de cargos ociosos na universidade e fora dela. A reforma deveria se constituir em mudança de seus conteúdos de classe, a fim de deixar as massas ingressarem. O autor faz a seguinte pergunta, nesse momento: “Por que existe hoje realmente a exigência da reforma da universidade? Responde ele: É porque forças externas atuam criando a premência de uma reforma da instituição. Ora, tais forças só podem ser as massas trabalhadoras” (1994, p.80).

Para Vieira Pinto (1994, p.81), é preciso discutir a seguinte questão:

Só há uma reforma desejável e só por ela têm os estudantes de lutar, a todo custo: a que abra a universidade a todo o povo, substitua os grupos nela dominantes por outros identificados com os interesses das classes trabalhadoras e organize o grau mais alto do ensino, não como morada de uma aristocracia do espírito, mas como a grande e limitada região onde habitam as gerações novas em sua totalidade, na fase em que se preparam para o trabalho fecundo.
[...] Para saber como será a universidade é preciso antes decidir para quem será a universidade. Esta é a formulação do problema que os pedagogos administrativos recusarão com horror. No entanto, é a primordial e verdadeira questão a discutir.
[...] Só quando as massas estiverem em condições, pela sua participação no poder político, de aspirar à plena cultura espiritual a que têm direito, será possível realizar a verdadeira reforma da instituição.


Nessa linha de raciocínio, competia à massa estudantil refletir, em seminários nacionais, a questão relativa aos seus futuros profissionais, pois é inútil esperar que o corpo docente auxilie convenientemente os alunos para seu ingresso no mercado de trabalho. No seu entendimento, a classe docente jamais deveria participar da reforma, pois passaria a sua cultura e não a cultura do povo. Nesta reflexão, o autor (1994, p.90) aponta que “a classe professoral ensina ‘o que sabe’, mas aí está exatamente a sua fatal deficiência; pois isto ‘que sabe’ aparece como o ‘não-saber’ do ponto de vista daqueles que compreendem que deveriam estar aprendendo coisa diferente do que lhes ensinam”.
Sem objetivos, reais e falsos, os estudantes perderiam muito tempo em discussões sem fundamentos para aquela situação, quanto à emancipação do país. Assim, os “objetivos enganosos”, segundo Vieira Pinto (1994, p.92), “eram os de reformar as relações da universidade com o aparelho de domínio social, quando o que se precisava fazer primeiramente era reformar as relações entre a universidade e o restante da realidade do país”. A universidade não mudaria de essência porque mudou de organização, mas porque mudou de conteúdo de classe.

Vieira Pinto (1994, p. 94) explicita que o
objetivo verdadeiro da reforma universitária teria de ser a alteração das relações externas da universidade, desligando-a da vassalagem à classe dominante e pondo-a completamente a serviço do povo, enquanto massa trabalhadora. É uma mudança qualitativa. Diz respeito à essência da universidade. Consiste numa verdadeira democratização da universidade, que se confundirá com a cultura do povo, apenas se distinguindo por ter como tarefa estabelecer o centro diretor da educação das massas.

É importante reter as propostas formuladas pelo autor, apesar da aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei federal nº 4024/61), por ter sido “um projeto insuficiente, frustro, alienado, desviador. [...] Nada havendo a esperar do setor professoral e dos grupos políticos atuais a quem servem, que devem então fazer as forças estudantis realmente renovadoras?” (1994, p.95). Como plano de ação imediata, entende que os estudantes, apoiados pela UNE, promova seminários nacionais e a partir deles, criar uma comissão composta exclusivamente por estudantes que elabore o projeto da reforma do ponto de vista do próprio estudante. “os estudantes, sabendo que tal projeto é político por essência, e só se poderá cumprir por via da transformação geral da sociedade, deverão organizar-se como força política para levar a cabo o seu projeto, mediante intensa luta social” (1994, p.96). Devem constituir-se em grupo de pressão social, que levarão aos parlamentares interessados no problema, as suas sugestões. Constituir sólida unidade das forças estudantis. A reforma universitária, não pode ser desvinculada da reforma agrária, bancária, administrativa, urbana. Não existe, por conseguinte, o problema da reforma universitária, mas o da reforma da sociedade, a qual se manifestará, num de seus aspectos, como surgimento de nova espécie de universidade. Para o autor (1994, p.97), “compete, pois, aos estudantes atuar como poderosos agentes de entrelaçamento das diversas forças sociais em combate por reformas em todos os setores da realidade [...] para realizar a sua própria reforma – a universitária”.
Vieira Pinto, nesta obra, se ateve apenas aos aspectos sociológicos das questões relativas à reforma universitária, sem abordar qualquer questão pedagógica. Para ele, cabe aos estudantes, e somente a eles, utilizarem o instrumento de diretrizes políticas que se materializem numa verdadeira reforma universitária. Citamos ainda cinco medidas propostas por ele, relativamente à pratica da reforma: 1 Cogoverno: para o autor isto parece ser essencial, para marcar a mudança qualitativa na essência da universidade. A democratização da universidade deve exprimir-se no estabelecimento do cogoverno docente-discente em todas as instâncias decisórias. 2 Supressão da trincheira do vestibular. 3 Universidade do povo - a universidade não constitui o término do processo educacional, mas se identifica com esse mesmo processo, em totalidade, como centro organizador da atividade pedagógica, devendo se construir o processo da educação de forma a não se apresentar como esfera celeste inacessível, mas a distribuí-la a todo o povo. 4 Luta contra a vitaliciedade da cátedra. 5 A última medida, deve ser o entrosamento das instituições de ensino superior com os centros sociais de produção, como fábricas, fazendas etc.

Para o autor, quando todas essas medidas forem realizadas pela luta dos acadêmicos contra a classe dominante, a universidade teria condições de assumir o seu papel político no processo educativo do povo brasileiro. Quando houver união do processo político, com a evolução cultural do povo brasileiro, só assim se determinará o desenvolvimento do Brasil.

A este respeito Vieira Pinto (1994, p.102) nos fala:

Assim sendo, criar, difundir e reger a cultura será função política da universidade, a qual se terá identificado, pelo trabalho profícuo que realizará, com a consciência dos líderes populares, então autênticos, os quais, como as massas em geral, encontrarão seu lugar natural na universidade, tornada assim, daí em diante, um bem de todo o povo.

Finaliza dizendo que os bens mais importantes para o povo brasileiro devem ser a liberdade unida à identificação da universidade com a sociedade, que deve ser o principal objetivo da reforma da universidade.




REFERÊNCIA

VIEIRA PINTO, Álvaro. A questão da universidade. 1ª ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1986.

______ A questão da universidade. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1994.




BIBLIOGRAFIA DE APOIO

BRASIL. Relatório da equipe de assessoria ao planejamento do ensino superior (Acordo MEC-USAID). Ministério da Educação e Cultura. 1969.

FREITAS, Marcos Cezar de. Álvaro Vieira Pinto: a personagem histórica e sua trama. São Paulo: Cortez: USF-IFAN, 1998.



[1] 1961, Vieira Pinto escreve um manual com cinco teses de orientação política aos estudantes, pela editora da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1986, publicado como livro, com o título “A questão da Universidade”, pela Editora Cortez: Autores Associados, 1ª edição e em 1994, a segunda edição.
[2] Observamos que a criação da União Nacional dos Estudantes ocorreu por ocasião do 1º Conselho Nacional de Estudantes, em 11 de agosto de 1937, como um órgão da Casa do Estudante do Brasil, que passou, no ano seguinte, a ter autonomia, organizando-se, com o passar dos dias, no principal órgão representante dos estudantes mais politizados do Brasil.
[3] Para maiores informações deste acordo, ver Relatório da equipe de assessoria ao planejamento do ensino superior – EAPS (acordo MEC-USAID), publicado pelo Ministério da Educação e Cultura, 1969.
[4] Os pedagogos, neste período, eram os técnicos que organizavam a grade curricular do ensino.

I SEMINÁRIO INTERNACIONAL DIREITOS HUMANOS, VIOLÊNCIA E POBREZA - UERJ - 25 A 27/10-2006.


POLÍTICAS PÚBLICAS E DIREITOS HUMANOS: SOCIEDADE, ESTADO E LIMITES DE AÇÕES.


Elias Canuto Brandão
Kiyomi Hirose
Maria Aparecida Cecílio



Compreendendo a necessária organização dos movimentos sociais na defesa de garantias de direitos, coordenamos no período de novembro de 2005 a julho de 2006, na Universidade Estadual de Maringá-PR/Brasil, um projeto de extensão dinamizado em oficinas de estudo teórico-prático planejadas e desenvolvidas com participantes do Fórum Regional de Direitos Humanos – FREDH em Maringá e entorno, com a finalidade de fortalecer as entidades que movimentam o sistema de defesa ao usar as ferramentas institucionais e legais, para garantia de vida de diferentes populações, em sua totalidade, populações vulneráveis a violações.
A vulnerabilidade é característica que mescla a condição de vida cerceada pela marginalidade social, política, econômica, e educacional, perpetuando o senso comum que transforma em mito a idéia de que prostituta, homossexuais, populações de rua, portadores de HIV, usuários de drogas, entre outros, é que constitui as populações vulneráveis.
Conhecer as faces da vulnerabilidade, pressupõe a conceituação das concepções de Direitos Humanos, implícitas nas ações da sociedade civil e nas práticas dos poderes públicos, institucionais.
Nessa perspectiva de conhecer as faces da vulnerabilidade, apresentamos as memórias de uma etapa de trabalho com entidades organizadas e mobilizadas mutuamente no processo de formação política, desencadeado em forma de curso de extensão. As entidades assumiram a execução de atividades que reorientaram os participantes nas práticas de garantia de direitos à medida do encontro e da convivência de agrupamentos que, até o período de realização do Curso: Políticas Públicas e Direitos Humanos: Sociedade, Estado e limites de ações, atuavam isoladamente.
As atividades de estudo desenvolvidas durante o curso implicaram na organização e execução de oficinas de estudo sobre o Sistema Nacional de Direitos Humanos e oficinas sobre a atuação de cada entidade envolvida do Fórum, as quais aconteceram nos locais de movimentação e desenvolvimento de projetos de cada entidade, constituindo lócus de saber apropriado ao aprendizado sobre as possibilidades de garantias e os limites das ações frente às políticas públicas de atendimento às prerrogativas de um Estado de Direito e mediante programas governamentais de atendimento temporário. Envolveram a participação de 118 pessoas em 10 oficinas.
Ao circunstanciar as ações civis de garantia de Direitos e o distanciamento dos poderes públicos em relação às ações sociais e políticas, observamos que é a ação civil que promove a inserção social “encarnada” por voluntários, sendo estes em muitas situações, membros das populações atendidas.
O estudo realizado descortina a demanda por acesso a informação, principalmente, de mecanismos de acionamento dos poderes públicos e dos espaços sociais, políticos e institucionais na formação para a cidadania e civilidade, aqui entendidas, como objeto do sujeito de direito subjetivo.
No artigo 5º da Constituição Federal Brasileira de 1988, os direitos e garantais fundamentais à cidadania e, na emenda de nº 45, temos incisos que justificam a função social da instituição educacional de fazer valer o direito de acessibilidade à informação. Ao considerar os documentos supranacionais referentes à garantia de direitos humanos, como documentos constitucionais, temos ampliado o universo de direitos a serem conhecidos a partir deste artigo.
Na medida do conhecimento a cerca dos mecanismos de funcionamento das estruturas públicas o artigo 5º consolida-se como objeto de estudo inerente à formação cidadã, ao vincular as normatizações nacionais às convenções internacionais, para diminuir o vácuo jurídico permeado por violações de direitos, . Vejamos o inciso LXXVIII, § 3º e 4º :
Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. [...] O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão.[1]

Identificamos nesse dispositivo legal o suporte necessário ao trabalho educacional institucional com o entendimento de que, para a recorrente discussão dos princípios que fundamentam a identidade cidadã, o compromisso das organizações civis promove a ação institucional e legitima os processos de apropriação do conhecimento de direitos, com efetiva garantia do direito de acesso a informação via instituição educacional acadêmica e autônoma na produção e socialização de conhecimento.
É no embate da construção de espaços compartilhados de aprendizagem que as organizações civis personificam as entidades, com sua presença participativa, dando identidade cidadã às lutas por garantia de direitos e, aos valores sociais. Nas palavras de BACCI, 2004:
“Todos os compromissos assumidos em nome dos direitos humanos, pelo Estado, pelas nossas organizações civis e por cada um de nós, valem nada se não levarmos em conta, como primissa, que quem faz a sua promoção e defesa são os defensores dos direitos humanos.”

BACCI, registra esse pensamento na apresentação do Relatório da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, na condição de presidente, por ocasião do II Seminário sobre defensores de direitos Humanos, em Brasilia-DF, em 2004, quando se discute a urgência pela implementação de políticas de proteção aos defensores de direitos e de seus familiares, o que documenta os limites históricos das ações de um Estado de Direito, que deveria, em tese, promover os direitos e mostra-se, no discurso de apresentação do seminário, como o principal violador de direitos, emergindo deste fato a carência institucional de garantia de funcionamento de instâncias deliberativas compartilhadas entre poder público e sociedade civil, para proteção de vítimas e testemunhas.
No sentido de buscar a promoção da proteção aos direitos e aos que vivem a insegurança de praticar a cidadania sem curvar ao poder violador, a proposta da comissão para o debate no seminário, que se registra na ocasião, na apresentação escrita pelo presidente é:
“...a criação de um sistema nacional que, dentro do espírito da indivisibilidade dos direitos humanos, reúna num só programa de Secretaria de Estado, a proteção à vítima da violência, a ampliação e o aperfeiçoamento da proteção à testemunha, além de incluir um subsistema especificamente para cuidar das garantias ao trabalho do defensor dos direitos humanos”.

No debate, o que de evidente é possível observar a partir do relatório final vindo a público, é a violação de garantias pelo Estado. Os operadores do direito, os chamados defensores públicos ou promotores de justiça, tornam-se vítimas, o que limita o reconhecimento civil do poder judiciário como poder defensor da cidadania, seja pela falta de aparatos jurídicos que tornem eficientes os mecanismo de defesas, seja pela incongruência dos poderes institucionais.
O que de fato histórico constitui contradições que descaracterizam o chamado Estado de Direito, mobilizam a população civil organizada, no trato dos direitos. As políticas públicas de ação são limitadas na implementação, por não serem sistemáticas e passíveis de averiguação e acompanhamento social.
A não existência de identidade sistêmica, própria dos poderes institucionais limitam as ações da sociedade civil e do Estado enquanto instituição de organicidade e proteção pública.
Ao compreender o vácuo que persevera entre um limite e outro, identificamos a importância institucional de ocupação educacional como forma de gestão pública das políticas implementadas para garantias de direitos e o estudo dos processos de elaboração de outras.
Objetivando a leitura conjuntural realizada pelas entidades que existem para garantia de direitos, a partir da realidade local do FREDH (Maringá-PR e região), nos colocamos, como cientistas, na função de promover a ciência, a trabalhar as indicações civis do que se entende por compromisso social e por elaboração de políticas de ação coletiva no estudo das concepções de Direitos Humanos e no conhecimento prático que credencia socialmente as entidades na relação com os poderes públicos.
O Coletivo entendido em conformidade com o estudo de ESCÓSSIA e KASTRUP, 2005, como forma de “superação da dicotomia indivíduo-sociedade”, como “co-engendramento e de criação”, consistindo-se em uma superação do pensamento dicotômico pela distinção e prolongamento das idéias que contemplam as entidades e os indivíduos possibilitando a “[...] criação de algo que não está nem em você nem no outro, mais entre os dois”.[2]
Partindo desta concepção de coletivo, a realização do estudo da criação do Sistema Nacional de Direitos Humanos com a orientação do Movimento Nacional de Direitos Humanos, por meio da organização do Regional Sul do Brasil e Coordenação do Estado do Paraná, comprometeu os participantes na sistematização das práticas pedagógicas de seus projetos isolados, alicerçando as sugestões de transposição dos limites comuns às entidades.
Foram identificados junto às organizações civis, os vácuos vivenciados no cotidiano regional e suas implicações na garantia de direitos a cidadania, promovendo o debate de sugestões de superação destes limites por meio de reconhecimento das potencialidades educacionais e políticas das organizações quando existe a solidificação de projetos regionais, estaduais e nacionais.
Mediante o debate de dois dias consecutivos, os relatos de violações e o levantamento de sugestões apontaram para carência de estudos sistemáticos em fórum aberto e em espaço institucional. A institucionalização destes limites, por ato de relatar e publicar, sedimenta o poder de vinculação dos compromissos localizados com o conjunto nacional, introduzindo o que poderia ser chamado de rede civil de Direitos Humanos no sistema educacional, compatibilizando academia e práticas sociais.
Compartilhar as práticas apropriadas no processo de formação durante o Curso de Extensão aqui apresentado, situa o nosso propósito de socializar o presente trabalho como uma possível ação de avanço em direção aos limites fluídos a cada violência que abate a capacidade humana de opor-se diante da tutela de Estado. A título de exemplo, registramos a ação das mães vítimas da violência, que persistem na busca de justiça na dor pela ausência de seus filhos, destituídos do poder de viver, por força policial. Como podemos tomar por referência a luta diária dos que vivem com AIDS e organizados para atender a comunidade infectada e a todos nós, população vulnerável, com constantes reuniões e palestras de educação preventiva e orientação acadêmica, denotando a ocupação estratégica de seus conhecimentos para proteção da vida. Ou ainda, os profissionais do sexo, que durante as madrugadas, visitam seus pares nas ruas, avenidas e estabelecimentos comerciais para orientar cientificamente, por meio de projetos subsidiados financeiramente por órgãos públicos, sobre as formas de proteção, fornecendo cadernos de leitura fácil e preservativos. Como também podemos contar sobre a organização das comunidades indígenas para encaminhar os jovens ao sistema oficial de ensino nas mais variadas áreas do conhecimento acadêmico universitário, mobilizando a população urbana. Ainda temos a dizer que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, organizados no setor de educação, fazem a gestão de Curso de Agroecologia em espaço público, conveniados com a Universidade Federal do Paraná e Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Paraná, para produção de alimentos sem uso de agrotóxico e formam seus estudantes de forma integrada no ensino técnico e regular médio. Dentre outros exemplos, temos as Associações civis que atendem pessoas com deficiências que no Brasil, não são reconhecidas no Sistema Educacional como de responsabilidade financeira integral do poder público.
Poderíamos dedicar páginas para exemplificar o que representou uma única ação de compromisso coletivo entre entidades e instituição na promoção de formas de acessibilidade de informações sobre proteção de direitos. Seria confortável descrever uma a uma em detalhes, mas o que temos a socializar imprime no presente texto o chamado ao debate das políticas públicas no meio acadêmico como prática educativa na formação de professores e agentes sociais atualizados. A formulação de diretrizes para educação em direitos humanos, que possibilite a atuação do meio acadêmico, encontra-se implícita nas declarações sobre direitos humanos dos presidentes do MERCOSUL e Estados Associados desde de 2005, justificadas na reafirmação de compromissos internacionais desde de 1948 com o seguinte texto:
Subrayan la importortância de lãs jornadas mercosurianas “Memória Verdad Y Justicia” realizadas em la cuidade de Montevideo el dia 16 de noviembre de 2005 sobre lãs graves, masivas y sistemáticas violaciones de Derechos Humanos ocurrridos em muchos de los países de la región em lãs décadas precedentes, y subrayan que constituye um derecho coletivo de nuestras sociedaddes el conocer la verdad acerca de lo ocurrido.

As relatorias nacionais da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais contextualizam que
“..a educação como direito humano é um tema novo sob o ponto de vista do seu conceito. A literatura trata muito mais do tema da Educação para o direito humano e muito pouco sobre o tema da educação como direito humano. Conceber a educação como direito humano diz respeito a considerar o ser humano na sua vocação ontológica de querer “ser mais”, diferentemente dos outros seres vivos, buscando superar sua condição de existência do mundo. Para tanto, utiliza-se do seu trabalho, transforma a natureza, convive em sociedade.

As relatorias de 2004 e as declarações do MERCOSUL de 2005, permeiam pauta nas dificuldades e avanços para exigibilidade dos direitos humanos econômicos, sociais e culturais e na fragilidade dos sistemas e mecanismos de proteção dos direitos e apontam para os impactos dos projetos localizados e para ausência de uma cultura de direitos e responsabilidade. É mediante este contexto que nos colocamos a estudar as concepções de direitos humanos, correntes e históricas, pressupondo estar participando da jornada cultural de manifestação de compreensão das teorias a serem conhecidas para explicitação de conceitos de trabalhos de proteção de Direitos.

BILBIOGRAFIAS:
RODRIGUEZ, Maria Elena (org). Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais. Relatorias Nacionais em Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais. Rio de Janeiro, 2005.

BACCI, Enio.Apresetnação. In: II Seminário sobre Defensores de Direitos Humanos no Brasil: relatório. – Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2004.

DECLARAÇÃO SOBRE DIREITOS HUMAMOS DOS PRESIDENTES DO MERCOSUL E ESTADOS ASSOCIADOS. Montevideo, 2005 – impresso.

BRASIL, Constituição Federal de 1988. Constituição da República Federativa do Brasil: 1988 – texto constitucional de 5 de outubro de 1988 com as alterações. Brasília: Câmara dos Deputados. Coordenação de Publicações, 2004.

ESCÓSSIA, Liliana da e KASTRUP, Virginia. O conceito de coletivo como superação da dicotomia indivíduo-sociedade. Revista Psicologia em Estudo, Maringá, V. 10, n. 2, p. 295-304, maio/agosto de 2005.
[1] Publicada no Diário Oficial da União de 31 de dezembro de 2004, p. 9-12.
[2] Revista Psicologia em Estudo, Maringá, v.10, n. 2, p. 295-304, maio/agosto de 2005.

COLE - 2007

AQUI

Irizelda Martins de Souza e Silva
Kiyomi Hirose
Maria Aparecida Cecílio
Universidade Estadual de Maringá/PR
http://politicagestão.blogspot.com/



PERSPECTIVAS DE LEITURA: EDUCAÇÃO DO CAMPO NA DÉCADA DA EDUCAÇÃO



A forma de existência da educação do campo entre 1997 e 2007 no Brasil, conforme a Constituição Federal de 1988, Artigo 214, é fonte inicial de referência para leituras dos desenhos das ações políticas de mandatos públicos no âmbito nacional. Na perspectiva de compreender os contornos deste desenho e sua representação social no atendimento à educação como direito de todos, temos por objetivo apresentar a relevância política do debate acadêmico sobre os estudos que orientam as ações de governo.
Trabalhamos para uma leitura dos dados que ultrapasse os dados quantitativos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP, 2007), pressupondo a necessidade de resgatar referências teóricas para uma leitura conjuntural. Como objeto de estudo é a educação do campo, entendemos que, pela constatação do INEP, de que 45% das escolas brasileiras são rurais e cerca de 90% das matrículas concentram-se na zona urbana, os números tornam-se um patamar de debate sobre a possibilidade de oferta de educação para todos no Brasil.
É oportuno e coerente, do ponto de vista político-educacional, pensar que a cana para Etanol passa a ser moeda de negociação da monocultura agro-exportadora onde se concentra a exploração do trabalho braçal-rural. Essa realidade de trabalho sazonal na cultura da cana motiva um processo migratório, incipiente ao sistema educacional, conduzindo-nos a questionamentos sobre os “todos” que têm por direito o atendimento educacional, inclusive as populações migratórias que vivem do trabalho no campo.
A pesquisa de mais de uma década referente à população campesina no Brasil, nos tem sugerido a constante necessidade de teorizar sobre as problemáticas que envolvem a educação na diversidade. Por isso ao elaborar o encontro das construções teóricas estudadas, adotamos o procedimento de contornar o período de modo a identificar o concreto das margens sociais que, ainda, impedem a inserção educacional de diferentes populações de origem rural.
Na trajetória de nossas investigações, apreendemos que muitos são os caminhos que poderíamos trilhar para tratar da questão da educação do e no campo, demarcando a “década da educação” (1997 a 2007) como uma das veredas a ser seguida até as margens que a delimitam. Para dar contornos ao mapa percorrido por pesquisadores por nós estudados, elegemos como forma de leitura, uma busca de referências documentais que parte da Carta Magna Brasileira de 1988 (BRASIL, 2004).
Iniciamos a leitura por uma possibilidade de interpretação do “Estado de Direito”, que, em termos legais, concretizou-se na Constituição do Estado Democrático, estipulando a década da educação como meta para a garantia dos direitos sociais, entre eles a educação.
Os discursos políticos, a partir de então, soam no território nacional, conduzidos por plataformas governamentais de efetivação dos espaços de direito e passam a ter, na educação escolar, um lugar de destaque, por pressupor que o direito à “igualdade” passa pela institucionalização da escola pública. Ao mesmo tempo, constatamos que, nas políticas públicas do Estado brasileiro, em detrimento à compreensão de educação para além do escolar, conforme estabelecido a partir das garantias fundamentais do texto constitucional vigente, no Artigo 5º (BRASIL, 2004) depreende-se o princípio da igualdade de direitos. Princípio este priorizado nos artigos 205 a 214, retomado na Lei de Diretrizes e Bases de 1996 em seu artigo primeiro (BRASIL, 1996) e no Plano Nacional de Educação de 2001 (VALENTE, 2001). Temos, então, uma base legal instituída para organização de um sistema educacional que abranja mais que o ensino. No entanto, o que parece garantia de direitos a todos os cidadãos, não tem representação social relevante para a vida das populações que não são urbanas. Muitos teóricos dedicaram suas pesquisas na busca de esclarecimentos sobre esse fenômeno da urbanização que separa campo e cidade não apenas geograficamente, mas, especialmente, nos planos político e econômico, que determinam a vida sócio-cultural dos rurais.
A partir de meados do século XX, as políticas nacionais transformaram a posição do rural e do urbano como habitat do homem brasileiro quando o mundo é redesenhado pelo processo de industrialização e internacionalização da produção. Nos relatos de Wilkinson, na década de 1970, constatamos que:
O desenvolvimento da produção industrial impôs um modo de vida completamente novo à população, colocando-a em um meio físico e social, drasticamente transformados [...] a quebra da cultura rural e da vida social são fatos notórios. [...] A mudança de contexto de vida levou a uma espécie de dívida - ou pobreza - acumulada, em um aspecto da existência após o outro. [...] Os velhos métodos de satisfação de várias necessidades humanas foram destruídos ou considerados obsoletos e, em função do novo padrão de vida, apareceram novos problemas exigindo novas soluções (1974, p. 191-192).
No início da década de 1990, configuram-se as práticas de exclusão social, economicamente determinadas. Conforme relata Chossudovsky (1999: 179):
A política macroeconômica acelerou a “expulsão” dos camponeses sem terra do interior, levando à formação de uma força de trabalho nômade, que migra de uma área metropolitana para outra. Nas cidades surgiu uma camada de pobreza urbana inteiramente nova (socialmente distinta da que caracteriza as favelas).

Chossudovsky (1999, p.179), ao discutir as políticas econômicas brasileiras no governo de Fernando Henrique Cardoso em 1994, argumenta que, para o cumprimento das metas agendadas, o Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional exigiam
[...] uma abordagem de “engenharia social”, uma estrutura política para “administrar a pobreza” e acalmar a agitação social a custo mínimo para os credores. Os chamados “programas de metas” destinados a “ajudar os pobres”, combinados com a “recuperação de custos” e a “privatização” dos serviços de saúde e educação, foram apresentados como um meio mais eficiente de implementar programas sociais.

As ações governamentais do período foram em forma de campanhas midiáticas, que retratavam a pobreza e a fome estilizada por tablóides, sem nenhuma ligação entre o que determinava a ocorrência da fome com as conseqüências da fome. A fome endêmica, fruto da miséria socioeconômica, era naturalizada. Dito de outra forma por Chossudovsky (1999, p. 181): “A campanha retratava a pobreza como pertinente essencialmente a uma “minoria social”, justificando assim o esquema de “metas seletivas em favor dos pobres” do Banco Mundial”.

No início do século XXI, precisamente em 2003, durante o XXI Simpósio Brasileiro de Política e Administração da Educação e III Congresso Luso-Brasileiro, realizado pelo Fórum Português de Administração Educacional em Recife, PE, ao socializar nossas pesquisas, pontuamos o vazio em relação às políticas públicas para educação do e no campo, apesar do princípio constitucional de garantia de direito à educação diante do estado de pobreza promovido economicamente, como constatamos nos registros do autor acima citado.
Relendo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei Federal 9.394/96, com o intuito de verificar o que dispõe o Artigo 28, extraímos o artigo para que o leitor possa acompanhar nossas observações. As estratégias executadas para aprovação do texto legal, contendo teor flexível, sedimentam as necessidades produtivas no meio rural em detrimento da qualidade da educação a ser oferecida à população infanto-juvenil. Vejamos o que foi aprovado como lei para educação do campo:
Na oferta de educação básica para população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região especialmente:

I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural;

II – organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas;

III – adequação à natureza do trabalho na zona rural.

Ao investigar o Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001, verificamos que, no diagnóstico de Valente (2001, p.104), por ocasião da elaboração do PNE, ao tratar de analfabetos na zona rural, a partir da pesquisa nacional por amostra de domicílios de 1996, publicada em 1998, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, (IBGE), havia, mais de 20 milhões de pessoas na zona rural com idade acima de 15 anos.
Os dados demonstrados por Valente (2001) evidenciam que a população rural: acampados, assentados, ribeirinhos, atingidos por barragens, quilombolas, indígenas e ilhéus, entre outras _ do Pará, de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima e Amapá _, não foi considerada. Observando que o Brasil também se constitui com esses Estados e suas populações, os dados divulgados oficialmente provocam dúvidas sobre a possibilidade no atendimento educacional da população camponesa não estimada, ou seja, não existente oficialmente.
Ao mesmo tempo que constatamos os vazios institucionalizados, na busca de reconhecimento dos direitos “dos não contados” oficialmente pelas políticas de governança, ocorreram os movimentos sociais e os debates sobre a necessidade de elaboração e defesa de um projeto de Educação Básica para o Campo no ano de 1998 em Luziânia – GO. O evento, Conferência Nacional por uma Educação Básica no Campo, denunciou que as propostas educacionais, levadas a efeito como políticas públicas no contexto brasileiro, são voltadas, quase em sua totalidade, para o meio urbano.
O projeto de sociedade efetivado no Brasil nos tempos de república nos leva a olhar para os caminhos que o homem campesino tem sido forçado a trilhar ao sair do campo buscando para buscar na cidade meios de subsistência, ou seja, o de ”[...] se encapsular cada vez mais em suas próprias criações para que o seu estilo de vida industrial urbano funcione” (WILKINSON, 1974, p.192).
O desenvolvimento rural aparece no contexto político e econômico nacional como prática de parceiros no financiamento para produção de grãos. Ainda no campo da monocultura, encontramos as populações migratórias que vivem do trabalho braçal no corte da cana de açúcar e álcool e que apresenta especificidades nas condições de vida e trabalho, necessitando de atendimento educacional.
Não apenas a maioria dos empregos exige agora um treinamento formal e especializado – mesmo aqueles considerados “trabalho manual” – como também certo nível de educação já é necessário há muito tempo para que as pessoas possam acompanhar a complexidade do dia-a-dia da vida urbana industrial. [...] A educação talvez seja o mais importante meio de consumo a servir a esse objetivo. (WILKINSON, 1974, p. 195).

A título de exemplo dessa especificidade, lembramos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Bóia-fria, realizada no ano de 1993 pela Assembléia Legislativa do Estado do Paraná, presidida pela então Deputada Estadual Emília Belinati. O documento final da CPI, relatado pela presidente, apresenta indicadores de como é formado o “curral do analfabetismo no Estado do PR” por meio da população trabalhadora na zona rural. Trechos do documento nos esclarecem sobre as medidas desenvolvidas no processo de exploração nas plantações de monocultura.
Sobre este assunto específico, Andrade (1994, p. 206) explica que “em toda a história das relações de trabalho na agricultura canavieira, foi utilizado o trabalho das mulheres e das crianças, sempre em condições inferiores às do trabalhador do sexo masculino“.

Essa constatação histórica denota a estagnação nacional na elaboração de políticas para atender às desigualdades sociais na erradicação de suas origens. Os relatos da CPI do Bóia-fria (BELINATI, 1993, p. 31), ao se referirem à população de Bóia-fria na Região Norte e Noroeste do Paraná, evidenciam:
O mais grave é que, considerável parte do contingente é formado por crianças que vão à roça ainda de chupeta na boca para engrossar o orçamento familiar. Elas não têm alimentação adequada, não tem carteira assinada, são transportadas sem a menor segurança, trabalham sem proteção e esgotam-se em jornadas exaustivas.

São documentos como este que certificam sobre a condição de vida de crianças que, em pouco tempo, são transformadas em trabalhadores sem o processo de formação educacional garantido. A situação de desamparo educacional, como demonstrado no Relatório da CPI, faz da educação do campo um universo a ser explorado, conforme constante manifestação de descontentamento dos movimentos sociais do campo organizados no setor de educação. No sentido de repensar o espaço campesino, o projeto de construção das escolas do campo vem imbricado à defesa da formação de educadores no e do campo.
De acordo com Leite (1999, p. 159):
A questão agrária voltou à cena em 1995, através da atuação de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ou mesmo na disputa pelo projeto de “agricultura familiar” encampado pelo movimento sindical, em especial, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). Ambas as investidas exigiram reações por parte do Estado, quer em programas específicos de atuação, quer no reaparelhamento burocrático, onde o seguimento “agrário” foi tomado como uma “carreira de Estado” no âmbito da reforma administrativa.

O mesmo autor relembra que algumas investidas na chamada área social da agricultura serviram muito mais como “colchões amortecedores” de conflitos do que, efetivamente, como política pública de atendimento à população do campo. Com a progressiva omissão do Estado, os conflitos com os movimentos sociais dão vazão para a contenção das demandas em programas estratégicos de governo, temporários, que respondem à necessidade imediata de mão-de-obra.
Para equacionar as estratégias de controle da pobreza, fazemos referência a Chossudovsky (1999) quando questiona a pseudodemocracia desenvolvida no ano de 1993 na administração da pobreza em áreas rurais no Brasil. Sua abordagem sobre as tramas financeiras revelam as redes de influência que determinaram a vida dos povos do campo. Vejamos:
A administração da pobreza em áreas rurais serviu aos mesmos objetivos gerais: controlava o movimento camponês em benefício da poderosa classe dos latifundiários do Brasil, enquanto garantia uma parca subsistência a milhões de camponeses sem terra erradicados e substituídos pelos negócios de agricultura de ampla escala (p. 182).

E mais:
Esses esquemas eram invariavelmente estabelecidos em terras marginais ou semi-áridas, sem prejuízo para os interesses dos latifundiários. Nos estados do Pará, Amazonas e Maranhão, vários doadores internacionais, inclusive o Banco Mundial e a Agência de Ajuda Japonesa, contribuíram para financiar (por meio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra) as chamadas “áreas de colonização”. “Estas serviram principalmente como reservas de mão-de-obra” para plantações em grandes escalas (p. 182).


Conforme o documento “Coleção Trabalho Infantil”, sobre o trabalho infantil no Brasil: questões e políticas, publicado pela Presidência da República, Governo Fernando Henrique Cardoso (BRASIL,1998), dados do ano de 1995, processados pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da pesquisa nacional por amostragem (PNAD), não contemplando a Região Norte do Brasil, conclui que as literaturas brasileiras alertam para a participação de crianças no trabalho braçal, constatando as taxas mais elevadas no Sul e no Sudeste do que no Norte e no Noroeste do Brasil. Os dados do PNAD indicam que:
3,6% (581,3 mil) das crianças entre 5 e 9 anos de idade estavam trabalhando, naquela época, com uma jornada média semanal de 16,2 h [...] e que [...] a maior parte desse trabalho (79,2%) ocorre em ocupações típicas da agricultura.

Considerando agravante, a análise dos dados leva à constatação do fato das origens do trabalho infantil ser as famílias pobres e de baixo nível educacional. O documento é concluído com o seguinte texto:
Trabalho e educação são atividades que, no curto prazo, são competitivas. As crianças, de forma geral, deveriam compreender essa questão. É preciso analisar a relação entre trabalho infantil e educação, incluída a associação do trabalho precoce com a evasão escolar. É necessário também saber como o trabalho da criança pode constituir o principal mecanismo de transmissão da pobreza por gerações.

O impacto social destas constatações, na contramão de tais estratégias políticas de parcerias de governos com organizações financeiras, descomprometidas com a inserção social das populações não urbanas, e a articulação nos movimentos sociais, em 1998, culminaram na I Conferência Nacional: Por uma Educação Básica do Campo, em Luziânia (DF), nos dias 27 a 30 de julho.
Os movimentos sociais, em parceria com as entidades promotoras – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF), Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e Universidade de Brasília (UNB) indicaram diretrizes de política pública para garantia de financiamento da educação continuada no e do campo em nível nacional, vinculada ao Ministério da Educação, como parte do sistema educacional brasileiro e não como possibilidades de utilização de verbas esporádicas, não garantidas no Plano Plurianual.
A educação no campo como política de Estado foi debatida sob o pressuposto da efetivação de verba pública, considerada legalmente no orçamento permanente da União e não na figura de programas temporários e governos temporários. Constitui-se, assim, um marco histórico na luta campesina por educação. Ao mesmo tempo, assistimos ao “espetáculo da pobreza” no cenário das representações sociais, transformando em ato místico de conquista do poder de diálogo entre extremos, governo e povo.
Na constante busca de conhecimento sobre as tramas políticas que envolvem a educação do campo, sinalizaram, nas discussões possibilitadas pelo grupo de estudos e pesquisa em “Políticas e Gestão da Educação” – Conselho Nacional de Pesquisa (UEM) e no desenvolvimento das disciplinas de Políticas Públicas e Gestão Educacional nas licenciaturas da UEM, para a vida campesina como diversidade sócio-cultural a ser investigada no campo de atuação de educadores.
O debate veiculado no meio acadêmico encontra-se, estreita e estritamente, vinculado ao espaço urbano, sistematicamente pensado para o mercado formal de trabalho nos diferentes setores de produção da nação.
Apresentamos essa realidade acadêmica, em Recife – 2003, como “um desafio de um novo tempo” no pensar o espaço público e a gestão da educação brasileira, sem esquecer a necessária aproximação entre campo e cidade, considerando a diversidade populacional que habita todos os estados federados como contribuintes.
Na perspectiva de leitura dos contornos das políticas nacionais, os movimentos sociais, ao defenderem um projeto de nação que integre a educação, a saúde e a comercialização, promovem parâmetros de planejamento e avaliação das “demandas sociais reprimidas” por estratégias de “combate à miséria”, permitindo à academia acompanhar as ações e reações do poderes executivos e legislativos.
Há compreensão de que é possível a vida no campo com famílias socialmente amparadas no problema do desemprego, na formação profissional, no acompanhamento à saúde e do atendimento educacional. É uma exigência, para a efetivação desse projeto, que o trabalho pedagógico/educativo seja realizado por educadores que, também, estejam vivendo no campo. Ou seja, que o educador seja um camponês de origem e vivência.
Encontramos, nos movimentos sociais, seguimentos como comunidades indígenas, trabalhadores rurais atingidos por barragens, trabalhadores rurais sem terra, bóias-frias, brasiguaios, refugiados de diferentes faixas etárias, entre outros agrupamentos. A aproximação dos universos dos “fora-do-lugar” e entendida com base em situações que nos revelam falta de identidade civil, de direitos sociais, políticos, ambientais, educacionais, dentre outros. Guardando estas especificidades e considerando a necessidade de pensar campo e cidade, sem fazer uma análise dicotômica entre estes espaços sociais e geopolíticos, a margem reconhecida no embate por educação não se faz geograficamente. Constitui-se no poder estratégico de sobreviver entre o direito à educação e o dever de trabalhar.
São projetos como os de pesquisa, ensino e extensão que levam à realização de ações coletivas que possibilitarão a participação no debate social para a concretização de políticas públicas, no cumprimento dos princípios constitucionais reiterados nas diretrizes nacionais, do fazer da educação um direito de todos que vivem na cidade e do campo, com suas especificidades.
A educação rural, mesmo mediante as lutas históricas da população campesina por direitos, é marginalizada e ressente-se da forma preterida com que ainda é lembrada, com expressões diminutivas, que dão conotação, no mínimo, pejorativa, tais como: “professorinha, “escolinha rural”.
Salientamos que a educação formalizada é um dos processos pelos quais a sociedade brasileira se configura, mas não é como pensa a pedagogia ingênua, a única que a configura no cenário nacional.
Na perspectiva republicana, espaço urbano e espaço rural, politicamente delineados, confrontam-se no processo pela conquista da garantia de direitos econômicos, sociais e culturais. Demarcando a formação de políticas, esse confronto fortalece a dicotomia campo/cidade e expressa, em muitos momentos, os conflitos que agridem os princípios de direito à cidadania. Mesmo nos momentos de mobilização nacional por um regime democrático de governo do Estado de Direito, campo e cidade não entoam as mesmas cantilenas para a conquista das garantias de dignidade na vida em sociedade.
O processo de não inserção socioeconômica e cultural da população do campo no projeto político de organização da vida urbana margeia o entorno social urbano com divisas entre campo e cidade. É na oferta de serviços públicos que encontramos o primeiro marco da fronteira do exercício da cidadania, instaurado na concepção de urbanidade. Ao campo, não se oferece urbanização. A escola, o posto de saúde, as estradas conservadas, a luz elétrica pública, a telefonia, entre outros benefícios da urbanização não fazem parte da organização dos territórios. Vivenciamos no ano de 2007, porém, apesar dos dados veiculados pelo INEP sobre a quantidade de escolas rurais, a política de desenvolvimento educacional do governo federal para as famílias do campo, na garantia de educação, resume-se no transporte escolar.

É com este mapeamento dos contornos da educação no campo na década da educação que delimitamos esse “box”, por meio do qual nos fazemos comunicar e nos propomos pensar sobre a importância do conhecimento dos “campos” de atuação dos educadores brasileiros. Entendendo que muitos são os campus mas o “campo” não se encontra integrado ao sistema educacional brasileiro como espaço geopolítico, habitado e trabalhado para a sustentação da nação, com a responsabilidade de subsidiar a economia nacional.
Constatamos, em nossos estudos na área de Políticas Públicas e Gestão da Educação, que a relação vertical entre economia e escolarização não é linear, todavia “o resultado de tensões sutis que ocorrem quando a cultura, o trabalho e a política se relacionam” (POPKEWITZ, 1997, p. 122).
Em Singer (2003, p. 84) encontramos afirmações sobre a realidade nacional:
O Brasil é a terra da desigualdade. Aqui o grau de disparidade entre ricos e pobres, brancos e não brancos, homem e mulher, moradores do campo e da cidade, indivíduos de alta e de baixa escolaridade é provavelmente maior que em outro lugar. [...] Os excluídos em termos de aquisição de renda, prestígio social ou direito legal são exatamente aqueles que obtêm menos desses recursos porque outros obtêm demais.

Percebemos, com base em Singer, o encaminhamento das políticas estratégicas de governo no trato do diagnóstico sobre a pobreza, identificando ações que se limitam em focalizar a pobreza, interpretando as desigualdades como grupos minoritários e negociando direitos, quando deveriam ser garantidos. As idéias de ação política demonstram que a Constituição Federal vigente tem sido lida de forma resumida, no seu artigo 3º, inciso III, como possibilidade de reduzir as desigualdades. Vejamos o inciso na íntegra: “Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (BRASIL, 2004).”
E o contraste social continua margeando a pobreza no meio rural brasileiro. No dia 29 de abril de 2007, o jornal “Folha de S. Paulo” publicou, com destaque, o que temos de mais recente sobre a vida dos trabalhadores rurais que vivem das atividades inerentes às plantações de cana. Os estudos divulgados apontam para uma vida útil de 12 anos para os cortadores de cana, o que seria inferior a vida útil de um escravo no Estado de São Paulo. Ao reproduzir o conteúdo da fala de Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba – SP, o redator, Zafalon, informa que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.
A nossa jornada de estudos levou-nos a olhar, enxergando, caminhos de leitura pisados pelos que antes de nós vieram na perspectiva de leitura do conjunto da sociedade datada nos tempos republicanos. Autores a atores sem nome, lenço ou documentos nos fizeram companhia no viver a territorialização dos poderes, constituindo-se mapas de caminhos a serem (re) desenhados.


Referências

ANDRADE, Manoel Correia de. Modernização e pobreza. A expansão da agroindústria canavieira e seu impacto ecológico e social. São Paulo: UNESP, 1994.

ARROYO, Miguel G. In: Prefácio. In: Por uma educação básica do campo. Brasília, UnB, 1999.

BELINATI, Emília. CPI do bóia-fria. Assembléia Legislativa do Estado do Paraná. Centro Cívico Bento Munhoz da Rocha Neto, Doc. 194/10 – Curitiba: 1993.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2004.

______. Lei de diretrizes e bases da educação nacional – Lei Federal n. 9.394/96 – Brasília, DF, 1996.

______. Presidência da República. Coleção trabalho infantil, n. 1 – Brasília, 1998.. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/publi_04/coleção/trabin.htm. Acesso em: 5 de mar. de 2007.

CHOSSUDVSKY, Michel. A globalização da pobreza: impactos das reformas do FMI e do Banco Mundial. São Paulo: Moderna, 1999.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANISIO TEIXEIRA. Informativo 149, 2 de mar. de 2007.

LEITE, Sérgio Celani. Escola rural: urbanização e políticas educacionais. São Paulo: Cortez, 2002.

______. Políticas públicas e agricultura no Brasil. Comentários sobre o cenário recente. In: LESBAUPIN, Ivo. (org). O desmonte da nação: balanço do governo FHC. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999

POPKEWITZ, Thomas S. Reforma educacional: uma política sociológica – poder e conhecimento em educação. Trad. Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

SINGER, Paul. Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas. São Paulo: Contexto, 2003.

VALENTE, Ivan. In: Plano nacional de educação. Lei Federal n. 10.172, de 9 de jan. de 2001. Diário Oficial da União de 10.10.2001. Brasília, DF, 2001.

WILKINSON, Richard G. Pobreza e progresso: um modelo ecológico de desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

ZAFALON, Mauro. Cortadores de cana têm vida útil de escravo em São Paulo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 29 de abril de 2007. Folha Dinheiro, Caderno B1, p. B1 e B3.