domingo, 17 de abril de 2011

Educação e Movimentos Sociais por Antônio Ozaí da Silva

Educação e Movimentos Sociais


Realizou-se nesta semana, na Universidade Estadual de Maringá, o II Ciclo de Debates sobre Educação e Movimentos Sociais.[1] Na terça-feira, 29 de março, Ana Inês Souza, do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (CEFURIA), proferiu a palestra A atualidade da obra de Paulo Freire e sua importância para a Educação Popular. Em 02 de abril, Nei Orzkoski, da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), conferenciou sobre A Universidade dos Trabalhadores: a Escola Nacional Florestan Fernandes.
A iniciativa dos organizadores é elogiável. Nos tempos atuais, são raros os momentos em que a universidade se abre para o intercâmbio com os movimentos sociais e dialoga com uma perspectiva pedagógica que a desafia. A convivência é salutar para todos. Eventos como este contribuem para a explicitação das diferentes posições políticas e ideológicas presentes no campus. Rompe com a falsa idéia de que a Universidade e a Ciência são neutras e imparciais.
A conferência da companheira Ana Inês Souza me fez pensar sobre as contradições inerentes ao espaço da educação formal e os dilemas expostos pela Educação Libertadora de Paulo Freire. Como incentivar a autonomia do educando num espaço que favorece a relação de dependência, muitas vezes incentivada pelos docentes? Como investir na autonomia do educando se ele chega ao ensino superior com medo da liberdade ou a confunde com licenciosidade? A pedagogia freireana é exeqüível num espaço em que as relações entre educador e educando são pautadas por mecanismos institucionais e burocráticos de poder? Enfim, é possível trabalhar no locus do campus na perspectiva freireana?
Observe-se que o evento envolve, principalmente, o curso de Pedagogia, majoritariamente composto por mulheres. Este intercâmbio estimula a reflexão das acadêmicas e contribui para a melhor compreensão dos movimentos sociais, em especial o MST. Por outro lado, colabora para a superação dos preconceitos fomentados pela grande mídia e também compartilhados por parte da docência – a qual tende a reproduzi-los em sala de aula sob o manto do saber pretensamente científico. O evento em si põe a nu as contradições da educação formal. Por exemplo, ao ficar nítida a resistência à educação popular, ao MST e outros movimentos sociais.
Com o auditório lotado, senti um misto de alegria e dúvida. Alegria pela significativa presença e interesse do público. Fiquei a me perguntar, porém, se todas estariam presentes se não fosse o “estímulo” dos docentes.[2] Ouvi manifestações de preferência pela aula (no sábado, a presença das acadêmicas foi bem menor, talvez porque não houve o “estímulo” de serem dispensadas das aulas). Considerando-se a temática e a inspiração filosófica do educador em pauta, não deixa de ser contraditório. Bem, talvez seja uma contradição necessária para o educar na perspectiva da Liberdade e Autonomia, e isto envolve tanto os educandos quanto os educadores.
A conferência do companheiro Nei Orzkoski também foi instigante e esclarecedora. Antes, foi apresentado o vídeo sobre a ENFF.[3] Ficou claro que a filosofia que permeia a formação política da ENFF é marxista. Está vinculada a um projeto político e social e é uma opção legítima. Não obstante, por que não estudar os clássicos do pensamento liberal e conservador diretamente na fonte? Não foi este é o método de Marx e Engels em sua crítica da Economia Política? A resposta confirmou a dúvida. Compreendo! Somos seres sociais contraditórios e, portanto, os movimentos sociais não prescindem das contradições do ser no mundo. Não obstante, parabéns a todos pela realização do evento. Que o exemplo se multiplique no espaço contraditório do campus.

[1] O evento foi promovido por: Escola Milton Santos de Educação do Campo – MST, Núcleo de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável – NADS/UEM, Projeto de ensino: "Políticas e Gestão no Brasil: Educação no e do Campo" – Departamento de Teoria e Prática da Educação/UEM, Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas Públicas e Gestão Educacional – GEPPGE/UEM, Espaço Marx e Terra, Trabalho e Cidadania.
[2] O “estímulo” dos professores/as é uma prática geral e comum nas universidades – também vivi esta experiência na graduação. Consiste em dispensar os/as alunos/as para participarem dos eventos, com a condição de que assinem a lista de presença que circula em momentos estratégicos. Em certos casos, a docência solicita relatórios sobre os temas tratados. Mas será que os/as alunos participariam se não fossem adotadas estratégias como estas? São os dilemas da educação formal, institucional e burocrática.
[3] O vídeo “ENFF: um sonho em construção” está disponível em http://www.mst.org.br/node/9047

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